14/01/12

Osso vaidoso: "Animal"

Osso vaidoso, composto por Ana Deus (ex-Ban) e Alexandre Soares (ex-GNR), publicaram com Animal um dos mais interessantes CDs portugueses do 2011. Trabalham com textos próprios mas também se apoiam em poesia contemporânea de Regina Guimarães, Alberto Pimenta ("Cola Cola Song" e "Ni nha rias") ou valter hugo mãe ("Poligamia").
Em 1996 a mesma dupla foi responsável pelo histórico álbum de estreia Partes Sensíveis (1993), quando integravam a banda Três Tristes Tigres. Naquele álbum estava o cativante tema “O Mundo A Meus Pés”. 
Vídeo da canção "Animal":


Animal - Osso Vaidoso from raquel castro on Vimeo.


Versão ao vivo de "Ni nha rias" sobre um texto de Alberto Pimenta:



Mais canções podem ser ouvidas aqui (com letras).
ComScoreMais vídeos aqui.

08/01/12

Isabela Figueiredo: Caderno de Memórias Coloniais

O Caderno de Memórias Coloniais, da escritora e bloguista Isabela Figueiredo, tem-se convertido, nos últimos anos, num dos acontecimentos literários mais importantes em Portugal. Para a revista Ípsilon, suplemento cultural do diário O Público, foi um dos livros do ano 2009 e que, agora, já vai na 5.ª edição. Os 43 textos que compõem o Caderno (seguidos por uma “adenda” e uma entrevista) representam, num tono autobiográfico, cenas de uma infância nos arrabaldes de Lourenço Marques, o que hoje em dia é Maputo, a capital de Moçambique. Parcialmente, estas memórias foram compiladas a partir do blogue "O Mundo Perfeito", criado pela autora em 2005, e que, inicialmente, estava encabeçado por uma epígrafe da poeta galega Lupe Gómez. Este blogue foi reconvertido, em 2009, a outro chamado "Novo Mundo". O impacto do Caderno de Memórias Coloniais, e o seu extraordinário destaque junto da crítica, deve-se ao facto de atentar contra o que se poderia chamar a visão paradisíaca ou, pelomenos, suavizada, que uma parte da sociedade portuguesa continua a cultivar no que diz respeito ao período colonial.
Este discurso cor-de-rosa está presente, ainda, na academia e no ensino. Se abrirmos, hoje, um compêndio de história de referência, como a História de Portugal, dirigida por José Mattoso, ou de grande divulgação sobre os Descobrimentos, como Originalidade da Expansão Portuguesa por Orlando Ribeiro, não encontraremos muitos relatos de perspectivas críticas sobre o colonialismo português nem muita informação sobre racismo, crimes de guerra ou as peculiaridades da sociedade colonial, sobre como se tratava a população autóctone, como eram as famílias fundadoras do sistema colonial, as histórias íntimas dos altos funcionários do regime ou dos militares que optaram por ficar lá depois do 25 de de Abril. Dentro e fora de Portugal continua a cultivar-se o discurso de um colonialismo mais brando e suave em comparação com os outros impérios, geralmente disfarçado da sua capacidade de mestiçagem de raças e de transferência intercultural. Os Anos da Guerra (1988), organizado por João de Melo, que combina uma antologia de textos literários sobre a experiência da guerra colonial com uma análise historiográfica crítica, representa uma excepção, enquanto outros, que se mostram abertamente críticos com a história da expansão portuguesa, como Ministros da Noite (1992) de Ana Barrados, são muito mais raros ainda.

15/12/11

Noémia de Sousa

 A poeta moçambicana teria completado 85 anos a 20 de Setembro de 2011.


NEGRA

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.
Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.
Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.
E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

14/12/11

Álvaro de Campos: "Ode Triunfal"

Segundo Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, nasce em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890, tem uma educação vulgar de liceu formando-se, depois, em engenharia mecânica e naval na Escócia.
Numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema "Opiário".
Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão.
Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas.
O seu "Ultimatum", publicado no Portugal Futurista (1917), é um manifesto contra os literatos e políticos instalados da época. Foi um admirador de Walt Whitman e de Cesário Verde.
Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica estética aberta.
Evoluiu no sentido de um tédio ou cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos. É o protótipo do vanguardismo modernista, é também o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a "Ode Triunfal" é um dos melhores exemplos:

08/12/11

A crise portuguesa através da lente de Eça


"Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal."
(in As Farpas, 1872)

“Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.”
(in Distrito de Évora, 1867)

07/12/11

Fernando Pessoa: Autopsicografia

A "Autopsicografia" talvez seja o poema mais conhecido de Fernando Pessoa. Foi publicado no n.º 36 da Presença, em Novembro de 1932 e tomado como ponto de partida da chamada "teoria do fingimento" do poeta dos heterónimos. O poema "Isto", publicado em 1933 também na Presença, estabelece um diálogo dialéctico com a "Autopsicografia", em reacção contra a ideia falsa que Pessoa considere a poesia ser mentira.

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama o coração.


Pequena selecção de adaptações audiovisuais e musicais:

05/12/11

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira in memoriam

Ontem morreu o futebolista e médico brasileiro conhecido como o "doutor Sócrates". Foi um dos principais activistas da democracia corinthiana, que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas. Em plena ditadura militar, os futebolistas estampavam nas suas camisas frases de cunho político, como "diretas-já", "eu quero votar para presidente".