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08/11/15

Adília Lopes e a poesia portuguesa contemporânea


"Adília Lopes e os novos caminhos 
da poesia portuguesa" 

Conferência da professora  
Ana Bela Almeida 
(Universidade de Liverpool)

Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 13.00 horas
Auditório ('Salón de Actos') 
da Facultade de Filoloxía e Tradución 
da Universidade de Vigo.


Adília Lopes introduziu na poesia portuguesa do último quarto de século uma ideia tanto estética como subversiva do quotidiano, a qual se aproxima da indiferenciação entre vida e arte. Uma obra de arte total, já não num sentido modernista e elitista, mas numa acepção democratizada:
"Trata-se de uma obra metaliterária, que reflecte sobre o seu próprio sentido e estrutura [...], no decorrer da qual se vai construindo uma autobiografia literária, como uma personagem heteronímica que se dedicasse a constantemente re-escrever a própria história. A escritora de carne e osso (a que dá entrevistas e vai à televisão) faz parte do jogo e serve os propósitos ou caprichos da personalidade/personagem literária que, na obra, se desdobra [...], num baile de máscaras sempre múltiplo e sempre in progress." (Almeida & Baltrusch 2007).

Na sua agora já vasta obra, tem vindo a adoptar, ao longo do tempo, sobretudo nos seus últimos livros (Manhã e Comprimidos, 2015), uma escrita cada vez mais breve e concentrada.
Já tem sido comparada, até, com a poeta galega Lupe Gómez:
"Em última análise, a Literatura e a Arte em geral, nos dedos de Lupe Gómez e Adília Lopes, são conceitos que vivem na e da corda bamba e nunca como definições estáticas/estáveis para nossa falsa comodidade. Neste sentido, revemos os versos de Adília Lopes: 
“a poetisa é a mulher-a-dias / arruma o poema / como arruma a casa / que o terramoto ameaça, a entropia de cada dia / nos dai hoje / o pó e o amor / como o poema / são feitos / no dia a dia” e, mais adiante, “graças ao amor / e ao poema / o puzzle que eu era / resolveu-se / mas é preciso agradecer o pó / o pó que torna o livro / ilegível como o tigre” (Mulher-a-dias, 2002). 
O pó é necessário à função de mulher-a-dias, tal como é necessário à de poeta. O pó é o elemento que altera/desordena as coisas e existe, como o amor, ou mais que o amor, para sempre. Ambos existem no dia-a-dia e não nalgum momento sublime, fora do tempo. É no combate incessante entre o amor e o pó, o belo e o feio, a ordem e a desordem, a arte e a vida, que a literatura encontra o seu (não) lugar.  
“A mulher-a-dias sou eu, é qualquer pessoa” (ibid.) – podiam tê-lo dito artistas como Joseph Beuys, Ben Vautier ou Cindy Sherman. Será interessante pensar em Adília Lopes e Lupe Goméz como as mulheres-a-dias das literaturas galega e portuguesa. Aquelas que fazem o dirty job, aquilo que os outros não querem fazer, mas que tem que ser feito. As que estão na sombra, mas sem as quais a instituição não funcionaria. As que trabalham para permitir aos outros o descanso. As que não têm medo de sujar as mãos. Tal como o pó, que nunca se limpa, mas que se vai limpando, também a revolução em literatura, como fica demonstrado, é algo que nunca se faz, mas que se vai fazendo, a cada livro, a cada verso." (Almeida & Baltrusch 2007)

Ana Bela Almeida, professora de língua e literatura portuguesa na Universidade de Liverpool, é uma das principais especialistas na obra de Adília Lopes na actualidade e foi pioneira ao compará-la com a poeta galega Lupe Gómez (já em 2004, na sua tese de mestrado sobre Representações do Corpo da Mulher nas Obras de Paula Rego, Adília Lopes e Lupe Gómez), sobre a qual publicou vários estudos e que traduziu ao português. Na actualidade, está a terminar a sua tese de doutoramento sobre "Animalidade e especismo na obra de Adília Lopes" e publicará em breve o livro Introdução à obra de Adília Lopes.

Este blog já dedicou vários posts tanto à obra como à recepção de Adília Lopes.

17/01/13

Uma comparação (im)possível entre Lupe Gómez e Adília Lopes

Ana Bela Simões de Almeida Burghard Baltrusch (2007):


In Helena González & María Xesús Lama (eds.): «Mulleres en Galicia» e «Galicia e os outros pobos da Península». Actas do VII Congreso Internacional de Estudios Galegos. Sada-A Coruña: Edicións do Castro, AIEG & Universitat de Barcelona, 299-311:




Recensão de Penélope Pedreira, “Un ruralismo simplista”, que foi publicada em 2001 na antiga versão de O Xinasio de Academo (http://www.ctv.es/Users/mforca/Revista), consulta do 4 de abril de 2003) e que aqui recuperámos:


28/11/11

Adília Lopes: "Quando o amor é foda"

"Penicos de Prata - 3 curtas poesias de Adília Lopes"
Adaptação musical de 3 poemas de Adília Lopes: 

Penicos de Prata - "3 curtas poesias de Adília Lopes" from MPAGDP on Vimeo.

Procedência: http://vimeo.com/mpagdp. Projecto 195. Filmado na Companhia Olga Roriz, Lisboa, 22 de Julho de 2011. Realização de Nélia Marquez Martins e som de Márcia Sousa e Nélia Marquez Martins.

Mais sobre Adília Lopes aqui.

09/05/11

Adília Lopes

"Louvor do lixo" (in A Mulher-a-Dias, Lisboa: &etc 2002, 13-14):



para a Amra Alirejsovic
quem não viu Sevilha não viu maravilha)

É preciso desentropiar / a casa / todos os dias / para adiar o Kaos / a poetisa é a mulher-a-dias / arruma o poema / como arruma a casa / que o terramoto ameaça / a entropia de cada dia / nos dai hoje / o pó e o amor / como o poema / são feitos / no dia a dia / o pão come-se / ou deita-se fora / embrulhado / (uma pomba / pode visitar o lixo) / o poema desentropia / o pó deposita-se no poema / o poema cantava o amor / graças ao amor / e ao poema / o puzzle que eu era / resolveu-se / mas é preciso agradecer o pó / o pó que torna o livro / ilegível como o tigre / o amor não se gasta / os livros sim / a mesa cai / à passagem do cão / e o puzzle fica por fazer / no chão


"Nunca choraremos bastante..." (in Decote da Dama de Espadas (Romances), Lisboa: Gota de Água 1988):



Nunca choraremos bastante / termos querido ser belas / à viva força / eu quis ser bela / e julguei que para ser bela / bastava usar canudos / pedi para me fazerem canudos / com um ferro de frisar e papelotes / puxaram-me muito pelos cabelos / eu gritei / disseram-me para ser bela / é preciso sofrer / depois o cabelo queimou-se / não voltou a crescer / tive de passar a andar com uma peruca / para ser bela é preciso sofrer / mas sofrer não nos faz forçosamente belas / um sofrimento não implica como consequência / uma recompensa / uma dor de dentes pode comover a nossa mãe / que para nos consolar sem saber de quê / nos dá um rebuçado / mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes / a consequência de um sofrimento / pode ser outro sofrimento / a causa é posterior ao efeito / o motivo do sofrimento é uma das consequências / do sofrimento / os papelotes são uma consequência da peruca

O cheiro de Deus - Recital de poesia de Adília Lopes




Adília Lopes - Nota 4





A Elisabeth foi-se embora, Adília Lopes




A Elisabeth foi-se embora

(com algumas coisas de Anne Sexton)

Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida


Papopoético 90 - Adilia Lopes





Entrevistas:

Transcrição de uma entrevista de Carlos Vaz Marques emitida na TSF no dia 17 de Junho de 2005: http://ofuncionariocansado.blogspot.com/2009/01/adilia-lopes-entrevista-de-carlos-vaz.html

Longa entrevista por escrito, dirigida por várias turmas da Escola Secundária José Gomes Ferreira em 2005: http://gavetadenuvens.blogspot.com/2005/09/entrevista-adlia-lopes.html


Bibliografia de Adília Lopes:
  • Um Jogo Bastante Perigoso (Ed. autora, 1985)
  • A Pão e Água de Colónia (Frenesi, 1987)
  • O Marquês de Chamilly (Kabale und Liebe) (Hiena, 1987)
  • O Decote da Dama de Espadas (INCM, 1988)
  • Os 5 Livros de Versos Salvaram o Tio (Ed. autora, 1991)
  • O Peixe na Água (& etc, 1993)
  • A Continuação do Fim do Mundo (& etc, 1995)
  • A Bela Acordada (Black Sun Editores, 1997)
  • Clube da Poetisa Morta (Black Sun Editores, 1997)
  • O Poeta de Pondichéry seguido de Maria Cristina Martins (Angelus Novus, 1998)
  • Florbela Espanca espanca (Black Sun Editores, 1999)
  • Sete rios entre campos (& etc, 1999)
  • Irmã Barata, Irmã Batata (Angelus Novus, 2000)
  • Obra (Mariposa Azual, 2000)
  • A Bela Acordada (Mariposa Azual, 2001)
  • Quem Quer Casar Com a Poetisa? (Quasi, 2001)
  • César a César (& etc, 2003)
  • Poemas Novos (& etc, 2004)
  • Caras Baratas (Relógio D'Água, 2004)
  • Le Vrai La Nuit - A Árvore Cortada (& etc, 2006)
  • Caderno (& etc, 2007)
  • Apanhar Ar (Assírio&Alvim 2010)

Alguma literatura crítica:

Material variado (poemas, entrevistas, recensões, artigos de índole académica): http://www.arlindo-correia.com/200301.html

Comparação entre as obras de Adília Lopes e da poeta galega Lupe Gómez: http://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch/Papers/150197/Entre_o_Essencialismo_Rural_de_Fisteus_e_o_Pos-modernimso_urbano_de_Lisboa_uma_Comparacao_Im_Possivel_entre_Lupe_Gomez_e_Adilia_Lopes

Sobre alguns aspectos pós-modernos e feministas da obra: http://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch/Papers/155114/Traduciendo_entre_la_entropia_y_la_subversion_la_obra_postmoderna_de_Adilia_Lopes