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08/01/12

Isabela Figueiredo: Caderno de Memórias Coloniais

O Caderno de Memórias Coloniais, da escritora e bloguista Isabela Figueiredo, tem-se convertido, nos últimos anos, num dos acontecimentos literários mais importantes em Portugal. Para a revista Ípsilon, suplemento cultural do diário O Público, foi um dos livros do ano 2009 e que, agora, já vai na 5.ª edição. Os 43 textos que compõem o Caderno (seguidos por uma “adenda” e uma entrevista) representam, num tono autobiográfico, cenas de uma infância nos arrabaldes de Lourenço Marques, o que hoje em dia é Maputo, a capital de Moçambique. Parcialmente, estas memórias foram compiladas a partir do blogue "O Mundo Perfeito", criado pela autora em 2005, e que, inicialmente, estava encabeçado por uma epígrafe da poeta galega Lupe Gómez. Este blogue foi reconvertido, em 2009, a outro chamado "Novo Mundo". O impacto do Caderno de Memórias Coloniais, e o seu extraordinário destaque junto da crítica, deve-se ao facto de atentar contra o que se poderia chamar a visão paradisíaca ou, pelomenos, suavizada, que uma parte da sociedade portuguesa continua a cultivar no que diz respeito ao período colonial.
Este discurso cor-de-rosa está presente, ainda, na academia e no ensino. Se abrirmos, hoje, um compêndio de história de referência, como a História de Portugal, dirigida por José Mattoso, ou de grande divulgação sobre os Descobrimentos, como Originalidade da Expansão Portuguesa por Orlando Ribeiro, não encontraremos muitos relatos de perspectivas críticas sobre o colonialismo português nem muita informação sobre racismo, crimes de guerra ou as peculiaridades da sociedade colonial, sobre como se tratava a população autóctone, como eram as famílias fundadoras do sistema colonial, as histórias íntimas dos altos funcionários do regime ou dos militares que optaram por ficar lá depois do 25 de de Abril. Dentro e fora de Portugal continua a cultivar-se o discurso de um colonialismo mais brando e suave em comparação com os outros impérios, geralmente disfarçado da sua capacidade de mestiçagem de raças e de transferência intercultural. Os Anos da Guerra (1988), organizado por João de Melo, que combina uma antologia de textos literários sobre a experiência da guerra colonial com uma análise historiográfica crítica, representa uma excepção, enquanto outros, que se mostram abertamente críticos com a história da expansão portuguesa, como Ministros da Noite (1992) de Ana Barrados, são muito mais raros ainda.

26/11/10

500 anos de Peregrinação

Este ano comemoram-se os 500 anos do nascimento do aventureiro, explorador e mercader português Fernão Mendes Pinto (nasceu, presumivelmente, em 1510) e do seu brilhante relato de viagens, a Peregrinação. A Fundação de Oriente e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda editaram uma obra em quatro volumes, resultado do trabalho de uma equipa internacional de especialistas dirigida por Jorge M. dos Santos Alves. O primeiro volume inclui um conjunto de 15 estudos sobre Mendes Pinto e a sua obra; no segundo, publica-se o texto restituído da edição original de 1614 (com acesso através deste blogue); no terceiro, as notas aos 226 capítulos escritas por especialistas em cada uma das temáticas abordadas e, por último, um volume de índices remissivos. Os textos desta obra que se pretende de referência junto da comunidade científica nacional e estrangeira são escritos em inglês, à excepção do volume II. Contudo, tendo em conta o facto de se tratar de um projecto já por si caro e dirigido, além disso, a uma comunidade bibliófila ou académica, não se entende porque os estudos e as notas não se oferecem, também, em língua portuguesa, uma vez que se supõe que o texto de Mendes Pinto pode ser lido nesta língua.

Na página "Autoras/es" deste blogue oferecemos um powerpoint  com uma introdução à vida, obra e recepção de Fernão Mendes Pinto, que faz concorrência com autores quinhentistas mais eruditos do que ele, como seriam, por exemplo, Luís de Camões ou João de Barros, cujas perspectivas relativiza de uma forma absolutamente remarcável.

Como material didáctico também são recomendáveis dois documentários de produção recente. O primeiro foi realizado por Bruno Neves em 2007 para a inauguração do Museu de Oriente:


Documentário Fernão Mendes Pinto: Uma vida em Peregrinação from Nuno Neves on Vimeo.

O segundo foi produzido pela RTP para a sua série "Grandes Livros", narrado por Diogo Infante, e que pretende contribuir para a promoção da leitura das grandes obras da literatura portuguesa:

Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5

26/10/10

Colonialismo e tabagismo à portuguesa

No sábado passado, a escritora Isabela Figueiredo publicou no seu blogue um excelente post sobre a "Colonização à portuguesa", cuja leitura recomendo vivamente. Não conheço melhor explicação em tão poucas palavras - e acompanhada de um acertado excerto de Mia Couto como exemplificação literária - daquilo que, dentro e fora de Portugal, ainda se continua a vender como um colonialismo mais brando e suave, em comparação com os outros. Enfim, como se Portugal tivesse inventado a mestiçagem de raças e a transferência intercultural. O post da Isabela fez-me lembrar, entre muitas outras coisas, uma marca de cigarros sem filtro que os mais atrevidos fumávamos na adolescência, apesar de ter sido um tabaco realmente ruim. A nossa iniciação no tabagismo à portuguesa guardava involuntárias semelhanças tanto com o colonialismo, como também com a saudade que uma parte da sociedade portuguesa ainda cultiva em relação a este. Sem conhecer ainda a célebre definição da saudade, já postulada por D. Duarte, sentíamos, simultaneamente, "nojo, tristeza e prazer" ao fumar aquilo. Era preciso ter uma grande capacidade de dissimulação e de desenrascanço para fazer crer ao resto da malta que se aguentava e, até, que se gramava o "Português suave"!  Suave na etiqueta, mas afinal sem filtro, essa talvez seria outra micro-definição do 'colonialismo à portuguesa'.