09/04/12

Almada Negreiros: "Nome de Guerra"

Nome de guerra, romance de aprendizagem (Bildungsroman) de Almada Negreiros, foi escrito em 1925 e publicado em 1938. Para Eduardo Prado Coelho, inaugura “na nossa literatura um modelo de ficção-reflexão” (1970: 35) que só na segunda parte do século terá continuidade. 

Em termos de construção narrativa, o romance representa a luta entre a personalidade do indivíduo e as normas da sociedade por adquirir uma certa autonomia. Antunes, o neófito, rebela-se contra os padrões sociais: "amava a verdade acima de tudo", "quem pensa sozinho não quer senão a verdade, as justificações são por causa dos outros". 

O problema começa com a tentativa dos pais, da sociedade e dos modelos culturais e psicológicos de exercer a sua influência sobre o destino do protagonista: "É sempre assim, temos sempre que perder o nosso tempo em desfazer o bem que os outros fizeram por nós". 

Dá-se uma menage à trois (constelação amorosa triangular) estereotípica entre o protagonista uma menina da aldeia (Maria), que o ama sem restrição e a meretriz da cidade (Judite), que desemboca numa situação inesperadamente complexa. Os estereótipos da mulher-anjo (Maria) e da mulher-demónio (Judite) reflectem-se no não menos convencional binómio cidade/campo, opondo a namorada da província à prostituta da cidade. Mas a morte de Maria não será justificada com o facto de o Antunes não responder ao seu amor: a questão da culpa não tem importância neste romance. Isto fica evidente com o facto de as instituições sociais (médicos, igreja), que o Antunes consulta para solucionar os seus problemas, não lhe oferecerem soluções. Também Judite passa por um processo da procura do eu, da própria personalidade, devido ao qual regressa à vida, contrariando as convenções, embora o resultado deste processo fique aberto no final. Representa-se o absurdo dos comportamentos institucionalizados na sociedade e a forma como podem ferir a personalidade do indivíduo.

O amor passa a ser um problema ou um fenómeno dentro da personalidade do indivíduo e é observado no seu lugar do origem, no sujeito, e só depois no seu objecto, a pessoa amada. A justificação é o argumento que o amor sem autonomia pessoal e de carácter representa um engano: "O desequilíbrio era para os dois lados: a Maria e a Judite eram ambas o mesmo erro!", "ninguém pode saber o que se passa connosco até à chegada da nossa consciência". Descreve-se, também, a condição da prostituta em 1925, com meras alusões, sem voyeurismo. Destaca-se, também, sem sentimentalismos, a enorme capacidade de sobrevivência da Judite neste meio social. 

Procura-se dissolver a dicotomia dos valores ‘masculinos’ e marialvas (D. Jorge) e ‘femininos’, embora sempre desde uma definição androcêntrica, típica da época, e que, ao final, também serão representados pelo Antunes. 

A "simplicidade extremamente sofisticada" (Jorge de Sena) da linguagem narrativa e o seu tratamento inovador do amor poderiam ter revolucionado a prosa portuguesa com a sua tradicional dependência do academismo. Porém, o romance não chegou a ter um êxito comparável, por exemplo, à Macunaíma de Mário de Andrade no Brasil, que transformou a prosa literária brasileira. A tendência geral de a burguesia portuguesa de princípios do século XX não ter questionado os modelos culturais e morais pode ter contribuído à dificuldade dos escritores de inovar os estilos e certos tratamentos temáticos.

Alguma bibliografia sobre Nome de Guerra:

Aguiar e Silva, Vítor Manuel de (1994), “Nome de guerra, romance de educação”, in Homenagem a Lúcio Craveiro da Silva, Braga, Centro de Estudos Humanísticos/Universidade do Minho, pp. 403-412.
Alçada Baptista, António (1986), “Nome de guerra, ou um outro amor em Portugal” in Almada Negreiros, José de (1986), Nome de guerra, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 11-22.
Ceia, Carlos (2003), “A construção do romance experimental modernista: Ulysses (1922), de James Joyce, e Nome de Guerra (1938), de Almada Negreiros” in Estudos angloportugueses. Livro de homenagem a Maria Leonor Machado de Sousa, Lisboa, Colibri, pp. 127-147.
Loureiro, La Salette (1996), A cidade em autores do primeiro modernismo. Pessoa, Almada e Sá-Carneiro, Lisboa, Estampa.
Lourenço, Eduardo (1966), “Uma literatura desenvolta ou os filhos de Álvaro de Campos” in O tempo e o modo. Revista de pensamento e acção, nº 42, pp. 923-935 [ed. ut.: 2003, O tempo e o modo. Revista de pensamento e acção. Uma antologia, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian].
Maia, João Domingues (1995), “Genealogia de um Nome de Guerra”, in Revista Augustus, Rio de Janeiro: Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Motta. V.01, N. 1. Disponível on-line: <http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/ensaio42.htm> (último acesso: 9/4/2012).
Martinez, Maria Ester (1983), “Nome de guerra: una novela de tesis”, in Nova Renascença, Vol. III, pp. 161-166.
Mourão-Ferreira, David (1964), “«Nome de Guerra»” [ed. ut.: 1966, in Hospital das letras, Lisboa, Guimarães Editores, pp. 199-205].
Prado Coelho, Eduardo (1970), “Sobre «Nome de Guerra»” in Colóquio/Letras, nº 60, pp. 35-38.
Régio, José (1938), “Nome de guerra, romance por José de Almada Negreiros. Colecção de autores modernos portugueses. Edições Europa, Lisboa” in Presença, Ano 11, Vol. 3º, nº 53-54, pp. 26-27 [ed. ut.: 1993, Presença. Edição facsimilada compacta, Tomo III, Lisboa, Contexto].
Ribeiro, Ana Maria Silva (2006), Aprender com as mulheres : presenças do feminino no romance de aprendizagem português do século XX, tese de doutoramento, disponível on-line: <http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/5642> (último acesso 9/4/2012).
Sapega, Ellen W. (1992), Ficções modernistas. Um estudo da obra em prosa de José de Almada Negreiros 1915-1925, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa.
Silva, Celina (1994), Almada Negreiros. A busca de uma poética da ingenuidade, Porto, Fundação Engenheiro António de Almeida.
___________ (1997), “A escrita em Almada ou uma busca-conquista” in Sentido que a vida faz, Porto, Campo das Letras, pp. 441-447.

Para ver algumas adaptações do romance e uma entrevista com Almada, dique em "Ler mais".

05/04/12

(Des)Acordo Ortográfico e outros (des)encontros essencialistas

O debate sobre o Acordo Ortográfico continua a ser um elemento de divisão na sociedade portuguesa e nas culturas lusófonas em geral. Já oferecemos alguns elementos do argumentário, tanto neste blogue como no nosso site em facebook. Acaba de ser publicada, uma carta dirigida ao ministro da Educação e Ciência, na qual uma mãe portuguesa reuniu boa parte dos argumentos jurídicos e culturais que se evocaram, até ao momento, contra o Acordo que está a ser ensinado nas escolas. Alguns são importantes, outros mais precários. Entre estes últimos, figura uma citação de Fernando Pessoa:

"a) Fernando Pessoa, sobre a reforma de 1911, escreveu: "A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito. [...]" (in "Pessoa Inédito"; Lisboa: Livros Horizonte, 1993)"

Neste contexto, há um certo perigo no aproveitamento de afirmações pessoanas (inevitavelmente estéticas, heteronímicas) sobre a língua portuguesa, a ortografia ou o universalismo da cultura portuguesa. Assim, em sentido restrito, desta citação só poderíamos deduzir um apelo ao individualismo anarquista em relação à ortografia, com as correspondentes consequências problemáticas (para o ensino, por exemplo). O argumento da autora torna-se, no entanto, ainda mais precário quando continua a afirmar que
 
"b) Escrita e oralidade são meios autónomos e complementares de manifestação do saber linguístico, em cada idioma. A importância da língua escrita (e da sua norma gráfica) é tanto maior quanto mais complexa e "textualizada" for a vida e a memória de uma sociedade, de uma cultura. A ortografia é garantia incontornável da estabilidade da língua escrita como elemento-chave da identidade nacional, visto que assegura em si mesma a inteligibilidade e a continuidade na transmissão do acervo histórico-cultural, da memória colectiva, de geração em geração, e é além disso portadora de uma simbólica e uma poética próprias, cuja delicada subtileza e riqueza se relacionam intimamente com a antiguidade da língua em apreço e com todo o património literário que lhe está associado."

Elevar a ortografia a "elemento-chave da identidade nacional", por muito questionável que o Acordo Ortográfico possa ser em termos jurídicos ou linguístico-culturais, ou é um excesso essencialista ou um mau uso de essencialismo estratégico. Nem a ortografia nem a própria língua seriam, em termos de diacronia, indispensáveis para a conformação e manutenção de uma identidade cultural. As diferenças nas falas e escritas (e não só das literárias) das variantes do português no espaço lusófono, em contínua evolução desde há séculos, são uma evidência. Por isso, nem seria preciso instituir uma forma ortográfica comum para que os vínculos linguístico-culturais permaneçam, nem seria imprescindível que cada estado lusófono mantivesse uma postura conservadora em relação à ortografia da sua variante. Em todo o caso, as variantes linguísticas e culturais da Lusofonia só se enriquecerão mutuamente na medida em que se desvinculam dos essencialismos históricos.

20/03/12

Álvaro de Campos: "Tabacaria", declamações e encenações

Algumas declamações e encenações de um dos poemas mais emblemáticos de Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. A "Tabacaria", escrita em 1928, foi publicada em 1933 na Presença.

Mário Viegas




14/03/12

Fred Martins: "Samba e outras bossas, poesia cantada brasileira"

O cantor e compositor fluminense Fred Martins falará e cantará na próxima quarta-feira, dia 21 de Março, na Faculdade de Filologia e Tradução da Universidade de Vigo ("Sala de Graos", 12:00 horas), em relação com o tema: 
"Samba e outras bossas, poesia cantada brasileira".

Fred Martins tem um repertório variado e muito relacionado com a tradição musical do artesanato da canção no Brasil, dialogando com o samba e a bossa nova, e também misturando elementos do rock e de outros estilos musicais. Recebeu o último Prêmio Visa de Música Brasileira.

A sua relação com a tradição musical brasileira afiançou-se com o trabalho de transcrição de partituras para alguns dos mais famosos Songbooks produzidos por Almir Chediak entre eles os de Chico Buarque, Tom Jobim, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Noel Rosa, João Bosco, Caetano Veloso entre outros. Este vídeo é uma versão de "Tempo afora" do disco homónimo de 2008:


Até agora, Fred Martins publicou quatro discos: Janelas (2001), Raro e comum (2005), Tempo Afora, CD e DVD (2008), Guanabara (2009). Acaba de lançar o trabalho Acrobata em dupla com
Ugia Pedreira (Galiza).
Participou nos festivais internacionais Músicas Portuárias, Cantos na Maré, Festival Jawhara (Marrocos), entre outros eventos.
Actualmente participa como compositor e intérprete no espectáculo de María Pagés, Utopia inspirado em Óscar Niemeyer.
 Mais informação:
"Tempo Afora" (DVD Tempo Afora - Canal Brasil):

07/03/12

Ricardo Reis: Materiais


Na célebre carta a Adolfo Casais Monteiro de 1935, Fernando Pessoa caracteriza Ricardo Reis da seguinte forma: 
"[...] nasceu em 1887 [...], no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. [...] Um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte [que caeiro], mais seco. [...] De um vago moreno mate. [...] Educado num colégio de jesuítas, é como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-hellenista por educação própria." 
Ainda segundo o seu criador, Ricardo Reis terá sido educado num colégio de jesuítas, tendo recebido uma educação clássica (latina) e estudado, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). 
A sua formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que o Pessoa-ipse considerava exagerado. Era médico, no entanto, não exercia a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Como pagão intelectual, lúcido e consciente demonstra uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o não comprometessem na sua liberdade interior. Representa uma resposta possível do ser humano ao desprezo dos deuses e à efemeridade da vida.
A obra de RR consiste em 250 odes, das quais aproximadamente 30 se publicaram nas revistas Athena e Presença ainda em vida de Pessoa. Reis interpreta o neo-paganismo do seu mestre de maneira mais metafísica.
Em relação às tarefas que Pessoa atribui aos heterónimos, Caeiro devia realizar a "Reconstrução da sensibilidade pagã" e Reis a "Reconstrução da estética pagã"; enquanto António Mora seria o responsável da "Theoria geral do paganismo novo" e da "contra-these à «Critica da Razão Pura» de Kant, e tentativa de reconstruir o Objectivismo Pagão", ou seja, do "neoclassicismo «scientifico»", no qual "a Sciencia substituirá a religião". 
A função de Reis na heteronímia contraria, assim, o primado visual de Caeiro, o seu materialismo de pura representação: "a propia sensualidade com a sua animalidade directa devem ser excluidas da arte. Essas coisas não são arte: são vida. A arte deve dar o material, mas tornado immaterial". 
Por isso, Reis critica Cesário Verde, o único poeta venerado por Caeiro: "O verso de Cesario. Isso é photographico, não pictural. E a photographia não é arte porque reproduz exactamente a materia. Só é arte pela escolha (do assumpto, da posição, etc.) porque a arte é escolha". 
Reis é anti-moderno em termos estéticos e céptico e contraditório no que diz respeito ao neo-paganismo: "Ao pagão moderno, exilado e casual no meio de uma civilização inimiga, só pode convir uma das duas formas últimas da especulação pagã - ou o estoicismo, ou o epicurismo".
Afirmou, também, que: "O paganismo morreu. O cristianismo, que por decadência e degeneração descende dele, substituiu-[o] definitivamente. Está envenenada para sempre a alma humana." 
Reis não respeita a exigência horaciana que a poesia devia ter uma utilidade para a vida: "O que sentimos verdade dentro de nós, traduzimos para a palavra, escrevendo os nossos versos sem olhar aquilo a que se destinam". E: "Um poema é a projecção de uma ideia em Palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão-sòmente o meio de que a ideia se serve para se reduzir a palavras". Álvaro de Campos considera que esta subordinação da linguagem lírica ao pensamento é a essência da poética de Reis.

Mais informação sobre Ricardo Reis e declamações das suas odes podem ser encontradas em MultiPessoa.
Uma boa informação geral, uma selecção de textos e exercícios (nível 12º ano) estão disponíveis em Lusofonia - Plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa.
A Wikipédia oferece, também, uma síntese bastante aceitável da sua obra.
Os textos de boa parte das odes estão disponíveis no Arquivo Pessoa.
Alguns exemplos de intertextualidade / recepção de Ricardo Reis na literatura portuguesa podem ser encontrados aqui.
Uma análise completa da obra do heterónimo por  Maria Helena Nery Garcez, O tabuleiro antigo: uma leitura do heterônimo Ricardo Reis (São Paulo: Universidade de São Paulo 1990), pode ser lida aqui.
Para ouvir uma declamação da ode "Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia..." por Luís Gaspar dique em "Ler mais...".

01/03/12

Pichação a debate

Recentemente, a New York Times ocupou-se do tema da pichação em São Paulo e obteve grande eco, não só no Brasil.
No Brasil, pichação refere-se ao acto de escrever ou rabiscar sobre muros, asfalto de ruas ou, até, sobre monumentos, usando tinta em spray aerosol, dificilmente removível, ou outras. Trata-se, de uma forma geral, de frases de protesto ou insulto, assinaturas pessoais ou mesmo declarações de amor, embora a pichação seja também utilizada como forma de demarcação de territórios entre grupos rivais. Distingue-se do grafite, uma outra forma de inscrição ou desenho, tida como artística, embora o termo graffiti costuma significar, noutras línguas, como a inglesa, formas de expressão mais ou menos artísticas. 
A pichação costuma ser fortemente criticada como acto de vandalismo, enquanto algumas vozes defendem o seu valor artístico e as suas mensagens porque as consideram uma expressão de protesta num contexto urbano com grandes problemas sociais. 
Dique em "Ler mais" para ver o trailer e um excerto do documentário Pixo de João Weiner, que retrata a vida do ex-pichador Djan Ivson e que também contém imagens da invasão de pichadores na Bienal de Arte de São Paulo em 2008 onde 'picharam' obras de arte para protestar contra a arte mainstream.

25/02/12