07/02/12

"O acordo ortográfico é um aleijão"

O blogue Estudos Lusófonos tem resistido, até ao momento, à implementação do acordo ortográfico. Algum dia há-de claudicar, ainda que seja só por causa das necessidades didácticas do ensino de língua portuguesa. Por enquanto, aderimos ao que disse o professor Paulo Franchetti, director da editora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), numa entrevista dada ao blogue Tantas Páginas (CLP, Universidade de Coimbra) sobre o "abstruso" acordo:
 
PF. O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado. Foi conduzido, aqui no Brasil, de modo palaciano: a universidade não foi consultada, nem teve participação nos debates (se é que houve debates além dos que talvez ocorram durante o chá da tarde na Academia Brasileira de Letras), e o governo apressadamente o impôs como lei, fazendo com que um acordo para unificar a ortografia vigorasse apenas aqui, antes de vigorar em Portugal. O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa. Não sei a quem o acordo interessa de fato. A ortografia brasileira não será igual à portuguesa. Nem mesmo, agora, a ortografia em cada um dos países será unificada, pois a possibilidade de grafias duplas permite inclusive a construção de híbridos. E se os livros brasileiros não entram em Portugal (e vice-versa) não é por conta da ortografia, mas de barreiras burocráticas e problemas de câmbio que tornam os livros ainda mais caros do que já são no país de origem. E duvido que a ortografia seja uma barreira comercial maior do que a sintaxe e o ai-meu-deus da colocação pronominal. Mas o acordo interessa, é claro, a gente poderosa. Ou não teria sido implementado contra tudo e todos. No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didáticos. Se cada casa brasileira que tem um exemplar do Houaïss, por exemplo, adquirir um novo, dada a obsolescência do que possui, não há dúvida que haverá benefícios comerciais para a editora e para a Fundação Houaïss – Antônio Houaïss, como se sabe, foi um dos idealizadores e o maior negociador do acordo. O mesmo vale para os autores de gramáticas e livros didáticos – entre os quais se encontram também outros entusiastas da nova ortografia. E não é de espantar que tenham sido justamente esses – e não os linguistas e filólogos vinculados à universidade – os que elaboram o texto e os termos do acordo. Nem vale a pena referir mais uma vez o custo social de tal negócio: treinamento de docentes, obsolescência súbita de material didático adquirido pelas famílias, adequação de programas de computador, cursos necessários para aprender as abstrusas regras do hífen e outras miuçalhas. De meu ponto de vista, o acordo só interessa a uns poucos e nada à nação brasileira, como um todo. Já Portugal deu uma prova inequívoca de fraqueza ao se submeter ao interesse localista brasileiro, apesar da oposição muito forte de notáveis intelectuais, que, muito mais do que aqui, argumentaram com brilho contra o texto e os objetivos (ou falta de objetivos legítimos) do acordo.

[Convém acrescentar que o negócio da Porto Editora também não era lá pouca coisa.]

05/02/12

"Ode Marítima": declamação e encenação


A seguir, apresentamos uma selecção de declamações e encenações (tanto fílmicas como teatrais) da "Ode marítima" de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, além do texto da ode e alguma informação adicional.

Se calhar a melhor declamação seja a do actor João Grosso.

Foi editada em disco pela Presença em 1995.

Pode ser ouvida ou através da Fonoteca Municipal de Lisboa ou a partir da lista que apresentamos abaixo (dicar em 'Ler mais').

02/02/12

O Português procede do Galego

No penúltimo número de Grial - Revista Galega de Cultura (191, 2011, 34-39), o linguista e professor da Universidade de Brasília, Marcos Bagno, publicou um artigo que é capaz de se transformar em referência de uma nova perspectiva sobre a história e a actualidade das variantes lusófonas: "O Português não procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego" (cf. infra). É absolutamente destacável que um linguista brasileiro tome partido de uma ideia que desde há algum tempo deambula pelas margens da linguística, embora ainda haja poucas/os académicos que se atrevem a defendê-la em público: Que a denominação "galego-português" é um anacronismo insustentável que deve ser abolido. A evidência histórica de que as as actuais variantes lusófonas são filhas do galego requer, também,  uma reavaliação do debate em torno da Lusofonia (cf. "Galiza e a Lusofonia", 2010).
Porém, para evitar outro anacronismo, Bagno devia ter explicitado que a origem das variantes galega e portuguesas actuais procedem de um 'galego antigo', diferente do actual, mas que, em todo o caso, já tinha sido denominado como 'língua galega' na Idade Média. Tanto o seu resumo claro e conciso das argumentações histórica e linguística, como também a sua proposta de classificação das variantes lusófonas actuais (o grupo "portugalego", como propõe denominá-las, cf. imagem supra) deviam ser tomadas como base do ensino de língua e literatura lusófonas na actualidade. Para ler o artigo dique aqui:

Fernando Pessoa: Documentários

A seguir apresentamos três documentários e dois depoimentos (de António Quadros e Almada Negreiros) sobre Fernando Pessoa.

Sofia Trigo (2011):


DOCUMENTÁRIO "Pessoas" from Sofia Trigo on Vimeo.

Para ver mais, dique aqui:

26/01/12

Ondjaki: “O drama é vizinho, todos os dias, da alegria”

Na próxima quarta-feira, dia 1 de fevereiro, o escritor angolano Ondjaki visitará a Universidade de Vigo para falar da literatura angolana actual e da sua própria obra. O acto, organizado pelo grupo de investigação GAELT, terá lugar na aula A7 da Faculdade de Filologia e Tradução a partir das 12:00 horas.
Ondjaki é uma das novas vozes angolanas mais divulgadas e traduzidas do momento. Recebeu em 2007 o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco pelo seu livro Os da Minha Rua e, em 2008, o prémio Grinzane para o melhor escritor africano do ano. Em 2010, foi-lhe outorgado o prestigioso prémio brasileiro Jabuti para o seu romance AvóDezanove e o Segredo do Soviético
Mais informações sobre o autor e sua obra, além de textos de poesia e prosa, podem ser encontradas aqui e aqui. A seguir, encontrarão uma entrevista inédita com Ondjaki, dois vídeos com entrevistas de 2009 e de 2011, além de vários links para estudos académicos e mais material audiovisual.

14/01/12

Osso vaidoso: "Animal"

Osso vaidoso, composto por Ana Deus (ex-Ban) e Alexandre Soares (ex-GNR), publicaram com Animal um dos mais interessantes CDs portugueses do 2011. Trabalham com textos próprios mas também se apoiam em poesia contemporânea de Regina Guimarães, Alberto Pimenta ("Cola Cola Song" e "Ni nha rias") ou valter hugo mãe ("Poligamia").
Em 1996 a mesma dupla foi responsável pelo histórico álbum de estreia Partes Sensíveis (1993), quando integravam a banda Três Tristes Tigres. Naquele álbum estava o cativante tema “O Mundo A Meus Pés”. 
Vídeo da canção "Animal":


Animal - Osso Vaidoso from raquel castro on Vimeo.


Versão ao vivo de "Ni nha rias" sobre um texto de Alberto Pimenta:



Mais canções podem ser ouvidas aqui (com letras).
ComScoreMais vídeos aqui.

08/01/12

Isabela Figueiredo: Caderno de Memórias Coloniais

O Caderno de Memórias Coloniais, da escritora e bloguista Isabela Figueiredo, tem-se convertido, nos últimos anos, num dos acontecimentos literários mais importantes em Portugal. Para a revista Ípsilon, suplemento cultural do diário O Público, foi um dos livros do ano 2009 e que, agora, já vai na 5.ª edição. Os 43 textos que compõem o Caderno (seguidos por uma “adenda” e uma entrevista) representam, num tono autobiográfico, cenas de uma infância nos arrabaldes de Lourenço Marques, o que hoje em dia é Maputo, a capital de Moçambique. Parcialmente, estas memórias foram compiladas a partir do blogue "O Mundo Perfeito", criado pela autora em 2005, e que, inicialmente, estava encabeçado por uma epígrafe da poeta galega Lupe Gómez. Este blogue foi reconvertido, em 2009, a outro chamado "Novo Mundo". O impacto do Caderno de Memórias Coloniais, e o seu extraordinário destaque junto da crítica, deve-se ao facto de atentar contra o que se poderia chamar a visão paradisíaca ou, pelomenos, suavizada, que uma parte da sociedade portuguesa continua a cultivar no que diz respeito ao período colonial.
Este discurso cor-de-rosa está presente, ainda, na academia e no ensino. Se abrirmos, hoje, um compêndio de história de referência, como a História de Portugal, dirigida por José Mattoso, ou de grande divulgação sobre os Descobrimentos, como Originalidade da Expansão Portuguesa por Orlando Ribeiro, não encontraremos muitos relatos de perspectivas críticas sobre o colonialismo português nem muita informação sobre racismo, crimes de guerra ou as peculiaridades da sociedade colonial, sobre como se tratava a população autóctone, como eram as famílias fundadoras do sistema colonial, as histórias íntimas dos altos funcionários do regime ou dos militares que optaram por ficar lá depois do 25 de de Abril. Dentro e fora de Portugal continua a cultivar-se o discurso de um colonialismo mais brando e suave em comparação com os outros impérios, geralmente disfarçado da sua capacidade de mestiçagem de raças e de transferência intercultural. Os Anos da Guerra (1988), organizado por João de Melo, que combina uma antologia de textos literários sobre a experiência da guerra colonial com uma análise historiográfica crítica, representa uma excepção, enquanto outros, que se mostram abertamente críticos com a história da expansão portuguesa, como Ministros da Noite (1992) de Ana Barrados, são muito mais raros ainda.