15/12/11

Noémia de Sousa

 A poeta moçambicana teria completado 85 anos a 20 de Setembro de 2011.


NEGRA

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.
Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.
Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.
E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

14/12/11

Álvaro de Campos: "Ode Triunfal"

Segundo Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, nasce em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890, tem uma educação vulgar de liceu formando-se, depois, em engenharia mecânica e naval na Escócia.
Numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema "Opiário".
Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão.
Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas.
O seu "Ultimatum", publicado no Portugal Futurista (1917), é um manifesto contra os literatos e políticos instalados da época. Foi um admirador de Walt Whitman e de Cesário Verde.
Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica estética aberta.
Evoluiu no sentido de um tédio ou cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos. É o protótipo do vanguardismo modernista, é também o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a "Ode Triunfal" é um dos melhores exemplos:

08/12/11

A crise portuguesa através da lente de Eça


"Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal."
(in As Farpas, 1872)

“Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.”
(in Distrito de Évora, 1867)

07/12/11

Fernando Pessoa: Autopsicografia

A "Autopsicografia" talvez seja o poema mais conhecido de Fernando Pessoa. Foi publicado no n.º 36 da Presença, em Novembro de 1932 e tomado como ponto de partida da chamada "teoria do fingimento" do poeta dos heterónimos. O poema "Isto", publicado em 1933 também na Presença, estabelece um diálogo dialéctico com a "Autopsicografia", em reacção contra a ideia falsa que Pessoa considere a poesia ser mentira.

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama o coração.


Pequena selecção de adaptações audiovisuais e musicais:

05/12/11

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira in memoriam

Ontem morreu o futebolista e médico brasileiro conhecido como o "doutor Sócrates". Foi um dos principais activistas da democracia corinthiana, que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas. Em plena ditadura militar, os futebolistas estampavam nas suas camisas frases de cunho político, como "diretas-já", "eu quero votar para presidente".




30/11/11

POEMATIZA!: Ciclo sobre poesia na Universidade de Vigo

Na próxima quinta-feira, dia 1 de Dezembro, terá lugar a segunda sessão do ciclo de debate sobre poesia e práticas textuais contemporâneas "POEMATIZA!", organizado pelo grupo de investigação GAELT da Universidade de Vigo (16:00 horas, sala C-8, Faculdade de Filologia da Universidade de Vigo). Contaremos com a presença da poeta galega Estíbaliz Espinosa, que seleccionou dois textos poéticos da sua autoria que apresentará em relação com o seguinte trecho de Clarice Lispector

"É tão curioso ter substituído as tintas por essa coisa estranha que é a palavra. Palavras — movo-me com cuidado entre elas que podem se tornar ameaçadoras; posso ter a liberdade de escrever o seguinte: "peregrinos, mercadores e pastores guiavam suas caravanas rumo ao Tibet e os caminhos eram difíceis e primitivos". Com esta frase fiz uma cena nascer, como num flash fotográfico.
O que diz este jazz que é improviso? diz braços enovelados em pernas e as chamas subindo e eu passiva como uma carne que é devorada pelo adunco agudo de uma águia que interrompe seu vôo cego. Expresso a mim e a ti os meus desejos mais ocultos e consigo com as palavras uma orgíaca beleza confusa. Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário: sou sozinha, eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo — cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou orgânica. E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria — e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens.
Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. Só tive inicialmente uma visão lunar e lúcida, e então prendi para mim o instante antes que ele morresse e que perpetuamente morre. Não é um recado de idéias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. E esta é uma festa de palavras. Escrevo em signos que são mais um gesto que voz. Tudo isso é o que me habituei a pintar mexendo na natureza íntima das coisas. Mas agora chegou a hora de parar a pintura para me refazer, refaço-me nestas linhas. Tenho uma voz. Assim como me lanço no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer."
Clarice Lispector, 1973, fragmento de Água Viva
Mais informação sobre Água Viva  aqui, e mais excertos podem ser lidos aqui.

28/11/11

Adília Lopes: "Quando o amor é foda"

"Penicos de Prata - 3 curtas poesias de Adília Lopes"
Adaptação musical de 3 poemas de Adília Lopes

Penicos de Prata - "3 curtas poesias de Adília Lopes" from MPAGDP on Vimeo.

Procedência: http://vimeo.com/mpagdp. Projecto 195. Filmado na Companhia Olga Roriz, Lisboa, 22 de Julho de 2011. Realização de Nélia Marquez Martins e som de Márcia Sousa e Nélia Marquez Martins.

Mais sobre Adília Lopes aqui.