14/12/11

Álvaro de Campos: "Ode Triunfal"

Segundo Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, nasce em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890, tem uma educação vulgar de liceu formando-se, depois, em engenharia mecânica e naval na Escócia.
Numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema "Opiário".
Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão.
Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas.
O seu "Ultimatum", publicado no Portugal Futurista (1917), é um manifesto contra os literatos e políticos instalados da época. Foi um admirador de Walt Whitman e de Cesário Verde.
Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica estética aberta.
Evoluiu no sentido de um tédio ou cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos. É o protótipo do vanguardismo modernista, é também o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a "Ode Triunfal" é um dos melhores exemplos:

08/12/11

A crise portuguesa através da lente de Eça


"Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal."
(in As Farpas, 1872)

“Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.”
(in Distrito de Évora, 1867)

07/12/11

Fernando Pessoa: Autopsicografia

A "Autopsicografia" talvez seja o poema mais conhecido de Fernando Pessoa. Foi publicado no n.º 36 da Presença, em Novembro de 1932 e tomado como ponto de partida da chamada "teoria do fingimento" do poeta dos heterónimos. O poema "Isto", publicado em 1933 também na Presença, estabelece um diálogo dialéctico com a "Autopsicografia", em reacção contra a ideia falsa que Pessoa considere a poesia ser mentira.

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama o coração.


Pequena selecção de adaptações audiovisuais e musicais:

05/12/11

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira in memoriam

Ontem morreu o futebolista e médico brasileiro conhecido como o "doutor Sócrates". Foi um dos principais activistas da democracia corinthiana, que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas. Em plena ditadura militar, os futebolistas estampavam nas suas camisas frases de cunho político, como "diretas-já", "eu quero votar para presidente".




30/11/11

POEMATIZA!: Ciclo sobre poesia na Universidade de Vigo

Na próxima quinta-feira, dia 1 de Dezembro, terá lugar a segunda sessão do ciclo de debate sobre poesia e práticas textuais contemporâneas "POEMATIZA!", organizado pelo grupo de investigação GAELT da Universidade de Vigo (16:00 horas, sala C-8, Faculdade de Filologia da Universidade de Vigo). Contaremos com a presença da poeta galega Estíbaliz Espinosa, que seleccionou dois textos poéticos da sua autoria que apresentará em relação com o seguinte trecho de Clarice Lispector

"É tão curioso ter substituído as tintas por essa coisa estranha que é a palavra. Palavras — movo-me com cuidado entre elas que podem se tornar ameaçadoras; posso ter a liberdade de escrever o seguinte: "peregrinos, mercadores e pastores guiavam suas caravanas rumo ao Tibet e os caminhos eram difíceis e primitivos". Com esta frase fiz uma cena nascer, como num flash fotográfico.
O que diz este jazz que é improviso? diz braços enovelados em pernas e as chamas subindo e eu passiva como uma carne que é devorada pelo adunco agudo de uma águia que interrompe seu vôo cego. Expresso a mim e a ti os meus desejos mais ocultos e consigo com as palavras uma orgíaca beleza confusa. Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário: sou sozinha, eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo — cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou orgânica. E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria — e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens.
Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. Só tive inicialmente uma visão lunar e lúcida, e então prendi para mim o instante antes que ele morresse e que perpetuamente morre. Não é um recado de idéias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. E esta é uma festa de palavras. Escrevo em signos que são mais um gesto que voz. Tudo isso é o que me habituei a pintar mexendo na natureza íntima das coisas. Mas agora chegou a hora de parar a pintura para me refazer, refaço-me nestas linhas. Tenho uma voz. Assim como me lanço no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer."
Clarice Lispector, 1973, fragmento de Água Viva
Mais informação sobre Água Viva  aqui, e mais excertos podem ser lidos aqui.

28/11/11

Adília Lopes: "Quando o amor é foda"

"Penicos de Prata - 3 curtas poesias de Adília Lopes"
Adaptação musical de 3 poemas de Adília Lopes

Penicos de Prata - "3 curtas poesias de Adília Lopes" from MPAGDP on Vimeo.

Procedência: http://vimeo.com/mpagdp. Projecto 195. Filmado na Companhia Olga Roriz, Lisboa, 22 de Julho de 2011. Realização de Nélia Marquez Martins e som de Márcia Sousa e Nélia Marquez Martins.

Mais sobre Adília Lopes aqui.

24/11/11

Tarsila do Amaral

Tarsila do Amaral nasceu em 1886 no município de Capivari, no interior do Estado de São Paulo. Era neta de José Estanislau do Amaral, cognominado “o milionário”, em razão da imensa fortuna que acumulou com as suas fazendas no interior de São Paulo.
Estuda em São Paulo e completa seus estudos em Barcelona, onde pinta seu primeiro quadro aos 16 anos. Casa-se em 1906 com André Teixeira Pinto com quem teve a sua única filha, Dulce. Separa-se dele e começa a estudar, a partir de 1916, escultura e, depois, desenho e pintura em São Paulo. Em 1920 embarca para a Europa, onde expõe, em 1922, um quadro no Salão Oficial dos Artistas Franceses. Nesse mesmo ano regressa ao Brasil e, embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922, faz parte do “grupo dos cinco” modernista, juntamente com Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Nessa época começa também o seu namoro com o escritor Oswald de Andrade.
Volta à Europa em 1923 e tem contacto com outras/os modernistas (Albert Gleizes, Fernand Léger, Blaise Cendrars, etc.). Em 1926 expõe em Paris com grande sucesso e casa-se com Oswald de Andrade. Em 1928 pinta o “Abaporu” que oferecerá como presente de aniversário a Oswald que, inspirado pelo quadro, cria o Movimento Antropofágico. Começa a fase antropofágica da sua pintura. Em 1929 expõe individualmente pela primeira vez no Brasil. Separa-se de Oswald em 1930.
Em 1933 pinta o quadro “Operários” e dá início à pintura social no Brasil. No ano seguinte participa do I Salão Paulista de Belas Artes. Passa a viver com o escritor Luís Martins por quase vinte anos, de meados dos anos 30 a meados dos anos 50. De 1936 à 1952, trabalha como colunista nos Diários Associados.
Nos anos 50 volta ao tema “Pau Brasil”. Participa em 1951 da I Bienal de São Paulo. Em 1963 tem sala especial na VII Bienal de São Paulo e no ano seguinte participação especial na XXXII Bienal de Veneza. Faleceu em São Paulo em 1973. 


A Negra (1923)
Pintado em Paris, enquanto tomava aulas com Fernand Léger. Com os seus elementos cubistas é considerado antecessor da Antropofagia na pintura de Tarsila. “A Negra” evoca, também, a infância numa família de grandes fazendeiros, onde costumava haver mulheres negras, geralmente filhas de escravos, que exerciam de amas-secas, espécies de babás, que cuidavam das crianças.


Abaporu (1928)

O quadro mais importante produzido no Brasil no século XX. Pintado para ser oferecido ao escritor Oswald de Andrade, que se assustou ao vê-lo. Chamou o também escritor Raul Bopp e ambos resolveram que aquela figura estranha representava algo excepcional. Tarsila consultou um dicionário tupi-guarani e baptizaram o quadro como “Abaporu” (o ser humano que come). A partir de aí, Oswald escreveu o "Manifesto Antropófago" que iniciou o Movimento Antropofágico na cultura brasileira contemporânea. Foi o quadro mais caro vendido até hoje no Brasil (comprado por US$ 1.500.000 por Eduardo Costantini).



O Ovo  (1928)

A cobra grande, relacionada com a mitologia ameríndia, tem um poder de "deglutição". A partir daí, o ovo passa a simbolizar uma génese de algo novo, tal como o propõe a Antropofagia. Esta tela pertence ao acervo de Gilberto Chateaubriand.





A Lua (1928)

A Lua - Este quadro era o preferido de Oswald de Andrade, com quem estava casada quando pintou a tela. Ele conservou o quadro até à sua morte (mesmo já separado de Tarsila).






Antropofagia (1929)

Com este quadro, Tarsila, realizou uma fusão do "Abaporu" com "A Negra".