A "Autopsicografia" talvez seja o poema mais conhecido de Fernando Pessoa. Foi publicado no n.º 36 da Presença, em Novembro de 1932 e tomado como ponto de partida da chamada "teoria do fingimento" do poeta dos heterónimos. O poema "Isto", publicado em 1933 também na Presença, estabelece um diálogo dialéctico com a "Autopsicografia", em reacção contra a ideia falsa que Pessoa considere a poesia ser mentira.
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração.
Pequena selecção de adaptações audiovisuais e musicais:
Ontem morreu o futebolista e médico brasileiro conhecido como o "doutor Sócrates". Foi um dos principais activistas da democracia corinthiana, que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas. Em plena ditadura militar, os futebolistas estampavam nas suas camisas frases de cunho político, como "diretas-já", "eu quero votar para presidente".
Na próxima quinta-feira, dia 1 de Dezembro, terá lugar a segunda sessão do ciclo de
debate sobre poesia e práticas textuais contemporâneas "POEMATIZA!",
organizado pelo grupo de investigação GAELT
da Universidade de Vigo (16:00 horas, sala C-8, Faculdade de Filologia da Universidade de Vigo). Contaremos com a
presença da poeta galega Estíbaliz Espinosa, que seleccionou dois textos poéticos da sua autoria que apresentará em relação com o seguinte trecho de Clarice Lispector:
"É tão curioso
ter substituído as tintas por essa coisa estranha que é a palavra. Palavras —
movo-me com cuidado entre elas que podem se tornar ameaçadoras; posso ter a
liberdade de escrever o seguinte: "peregrinos, mercadores e pastores
guiavam suas caravanas
rumo ao Tibet e os caminhos eram difíceis e primitivos". Com esta frase
fiz uma cena
nascer, como num flash fotográfico.
O que diz
este jazz que é improviso? diz braços enovelados em pernas e as chamas
subindo e eu passiva como uma carne que é devorada pelo adunco agudo de uma águia que
interrompe seu vôo cego. Expresso a mim e a ti os meus desejos mais ocultos e
consigo com as palavras uma orgíaca beleza confusa. Estremeço de prazer por entre a
novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente
a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário:
sou sozinha, eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar
um primitivo mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem
fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo —
cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda
luz de um sexo mítico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou
orgânica. E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa
alegria — e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens.
Não sei sobre
o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. Só tive inicialmente
uma visão lunar e lúcida, e então prendi para mim o instante antes que ele morresse e
que perpetuamente morre. Não é um recado de idéias que te transmito e sim uma
instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. E esta
é uma festa de
palavras. Escrevo em signos que são mais um gesto que voz. Tudo isso é o que me
habituei a pintar mexendo na natureza íntima das coisas. Mas agora chegou a hora de parar
a pintura para me refazer, refaço-me nestas linhas. Tenho uma voz. Assim como me lanço
no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. O mundo não
tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer."
Procedência: http://vimeo.com/mpagdp. Projecto 195. Filmado na Companhia Olga Roriz, Lisboa, 22 de Julho de 2011. Realização de Nélia Marquez Martins e som de Márcia Sousa e Nélia Marquez Martins.
Tarsila do Amaral nasceu em 1886 no município de Capivari, no interior do Estado de São Paulo. Era neta de José Estanislau do Amaral, cognominado “o milionário”, em razão da imensa fortuna que acumulou com as suas fazendas no interior de São Paulo.
Estuda em São Paulo e completa seus estudos em Barcelona, onde pinta seu primeiro quadro aos 16 anos. Casa-se em 1906 com André Teixeira Pinto com quem teve a sua única filha, Dulce. Separa-se dele e começa a estudar, a partir de 1916, escultura e, depois, desenho e pintura em São Paulo. Em 1920 embarca para a Europa, onde expõe, em 1922, um quadro no Salão Oficial dos Artistas Franceses. Nesse mesmo ano regressa ao Brasil e, embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922, faz parte do “grupo dos cinco” modernista, juntamente com Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Nessa época começa também o seu namoro com o escritor Oswald de Andrade.
Volta à Europa em 1923 e tem contacto com outras/os modernistas (Albert Gleizes, Fernand Léger, Blaise Cendrars, etc.). Em 1926 expõe em Paris com grande sucesso e casa-se com Oswald de Andrade. Em 1928 pinta o “Abaporu” que oferecerá como presente de aniversário a Oswald que, inspirado pelo quadro, cria o Movimento Antropofágico. Começa a fase antropofágica da sua pintura. Em 1929 expõe individualmente pela primeira vez no Brasil. Separa-se de Oswald em 1930.
Em 1933 pinta o quadro “Operários” e dá início à pintura social no Brasil. No ano seguinte participa do I Salão Paulista de Belas Artes. Passa a viver com o escritor Luís Martins por quase vinte anos, de meados dos anos 30 a meados dos anos 50. De 1936 à 1952, trabalha como colunista nos Diários Associados.
Nos anos 50 volta ao tema “Pau Brasil”. Participa em 1951 da I Bienal de São Paulo. Em 1963 tem sala especial na VII Bienal de São Paulo e no ano seguinte participação especial na XXXII Bienal de Veneza. Faleceu em São Paulo em 1973.
A Negra (1923)
Pintado em Paris, enquanto tomava aulas com Fernand Léger. Com os seus elementos cubistas é considerado antecessor da Antropofagia na pintura de Tarsila. “A Negra” evoca, também, a infância numa família de grandes fazendeiros, onde costumava haver mulheres negras, geralmente filhas de escravos, que exerciam de amas-secas, espécies de babás, que cuidavam das crianças.
Abaporu (1928)
O quadro mais importante produzido no Brasil no século XX. Pintado para ser oferecido ao escritor Oswald de Andrade, que se assustou ao vê-lo. Chamou o também escritor Raul Bopp e ambos resolveram que aquela figura estranha representava algo excepcional. Tarsila consultou um dicionário tupi-guarani e baptizaram o quadro como “Abaporu” (o ser humano que come). A partir de aí, Oswald escreveu o "Manifesto Antropófago" que iniciou o Movimento Antropofágico na cultura brasileira contemporânea. Foi o quadro mais caro vendido até hoje no Brasil (comprado por US$ 1.500.000 por Eduardo Costantini).
O Ovo (1928)
A cobra grande, relacionada com a mitologia ameríndia, tem um poder de "deglutição". A partir daí, o ovo passa a simbolizar uma génese de algo novo, tal como o propõe a Antropofagia. Esta tela pertence ao acervo de Gilberto Chateaubriand.
A Lua (1928)
A Lua - Este quadro era o preferido de Oswald de Andrade, com quem estava casada quando pintou a tela. Ele conservou o quadro até à sua morte (mesmo já separado de Tarsila).
Antropofagia (1929)
Com este quadro, Tarsila, realizou uma fusão do "Abaporu" com "A Negra".
Em 1891, há 120 anos, morreu Antero de Quental, uma das figuras marcantes da cultura portuguesa na segunda metade do século XIX.
Nasceu em 1842 em Ponta Delgada e veio para o continente, em 1855, e estudou Direito
em Coimbra, entre 1858 e 1864. Em 1865 publicou as Odes Modernas, envolvendo-se ainda na agitação académica,
particularmente através da organização secreta «Sociedade do Raio», de que era
presidente. Datam também deste período as suas manifestações de entusiasmo face
aos movimentos sociais europeus, bem como a leitura dos grandes teorizadores do
socialismo e dos filósofos da época, nomeadamente Proudhon e Hegel, que muito
influenciaram o seu pensamento.
Igualmente, em 1865, e reagindo a Castilho,
encabeçou a Questão Coimbrã, tão importante na evolução da cultura
portuguesa, publicando "Bom Senso e Bom Gosto", carta a Castilho, que
teve várias edições em Coimbra e Lisboa, e A Dignidade das Letras e as
Literaturas Oficiais, em Lisboa. Aí, defendia já a missão social da poesia
por oposição ao lirismo ultra-romântico. Antero ascendeu, assim, a mentor da Geração de 70.
Durante os anos de 1870-72, fez parte das redacções
dos periódicos A República, com Oliveira Martins, Batalha Reis, Eça de
Queirós e António Enes, e do Pensamento Social, com Oliveira Martins.
Fundou, em 1872, a Associação Fraternidade Operária, representante em Portugal
da I Internacional Operária, e publicou, no Porto, Considerações sobre a
Filosofia da História Literária Portuguesa e Primaveras Românticas.
A este período de combate, que perdurou até cerca de
1875, esteve também ligada a organização das Conferências do Casino
(1871), ciclo da responsabilidade do «Grupo do Cenáculo» (que incluía Eça de
Queirós, Ramalho Ortigão e Batalha Reis, entre outros), que Antero elevara a
centro de reflexão política, social e cultural. Nas conferências, leu um dos
seus textos de análise histórica mais célebres, "Causas da Decadência dos
Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos", que corresponde aos desejos
de transformação do país que animavam a sua geração.
Em 1873, a morte do pai fê-lo regressar aos Açores,
dotando-o de uma herança que lhe garantiu uma vida sem problemas económicos.
Entretanto, atacado por uma doença estranha (identificada por alguns como
psicose maníaco-depressiva), foi obrigado a moderar a sua actividade. Apesar
disso, dirigiu ainda, com Batalha Reis, a Revista Ocidental (1875).
Iniciou-se então um período de profundo pessimismo, deixando-se Antero dominar
por um sentimento de morte e de aniquilação pessoal (e universal), numa espécie
de nirvana budista, como única forma de libertação face ao desespero de uma
vida que via apenas como ilusão e vazio, e que os seus Sonetos Completos
(reunidos em 1886) ilustram. Neste período, que terminou por volta de 1880,
publicou ainda no Dois Mundos (publicação de Paris) uma biografia de
Michelet. No ano seguinte, seguiu para Vila do Conde, assumindo a educação das
filhas, entretanto órfãs, de Germano Meireles, um seu amigo, e vivendo em
relativa calma até ao fim dessa década. Aceitou ainda, em 1890, a presidência
da Liga Patriótica do Norte, um dos movimentos de reacção ao Ultimato inglês.
Aos seus problemas pessoais e à persistência da doença somava-se a desilusão
face ao estado do país. Em 1891, regressou a Ponta Delgada e, nesse mesmo ano,
suicidou-se.
A obra de Antero, que reflecte, quer uma evolução,
quer a coexistência simultânea de várias facetas da sua personalidade e de um
intenso drama interior, é fundamentalmente a de um pensador, de um doutrinário
e conceptualizador. Mesmo o sentimento erótico e amoroso, presente em poemas de
juventude, acaba por se tornar fundamentalmente alegórico, reflectindo anseios
e abstracções, mais do que uma emotividade pessoal do poeta. Poeta da razão, da
revolução, mas também do pessimismo, foi um sonetista exemplar.
Em prosa, onde revela grande poder oratório, levou a
cabo o melhor da sua obra crítica e doutrinária, na análise da filosofia da
história portuguesa (como em "Tendências Gerais da Filosofia na Segunda
Metade do Século XIX", ensaio publicado, em 1890, na Revista de
Portugal, de Eça de Queirós) e na crítica do positivismo então dominante, a
que opunha a necessidade de uma consciência espiritual no mundo. A esta
concepção está ligada a ideia de santidade que sempre o dominou — não no
sentido religioso cristão, mas com expressão no seu espírito combativo, numa
epopeia da humanidade e da revolução, na sua fase combativa, e, em princípio e
fim de vida, num apelomístico interior. Pela sua envergadura intelectual, pela
perfeição da sua técnica do soneto e pelo seu contributo para a história das
ideias, é um dos nomes fundamentais da cultura portuguesa.
Um dos seus poemas mais modernos, e que condensa todo um conjunto de problemas estéticos e filosóficos do século XIX, talvez seja "Noites de primavera no 'boulevard'" de 1867:
Em 1908, o compositor Luís de Freitas Branco dedica-lhe este poema sinfónico ("Depois de uma leitura de Antero de Quental")
Obras de Antero de Quental
Poesia: Sonetos (1861), Beatrice (1863), Fiat
Lux (1863), Odes
Modernas (1865), Primaveras Românticas (1872), Sonetos
(1881), Sonetos Completos (1886), Raios de Extinta Luz, Poesias
Inéditas 1859-1863 (1892), Poesias de Extinta Luz e Outras Poesias
(1948) e Versos (1973).
Ensaio e prosa: Prosas
(3 volumes, 1923, 1926, 1931), Prosas Dispersas (1967), Prosas da
Época de Coimbra (1973) e Cartas (2 vols.) e Filosofia (estas duas últimas publicadas em
1991 numa edição das Obras Completas org. pela Universidade dos Açores).
Um dos poetas maiores de Moçambique. Nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo) em 1922 e faleceu em Joanesburgo em 2003. Foi o poeta da resistência no tempo anterior à Independência, sem ter abdicado do activismo no período ulterior. Muitos dos seus poemas são considerados, hoje, como textos fundadores da nacionalidade moçambicana. Bibliografia, poesia: Chigubo (1964); Karingana ua karingana (1974), Cela 1 (1980), Maria (1988), Babalaze das Hienas (1997); ficção: Hamina e Outros Contos (1997).
Biografia:
Neste vídeo, José Craveirinha declama um dos seus poemas mais célebres, "Grito Negro":