Procedência: http://vimeo.com/mpagdp. Projecto 195. Filmado na Companhia Olga Roriz, Lisboa, 22 de Julho de 2011. Realização de Nélia Marquez Martins e som de Márcia Sousa e Nélia Marquez Martins.
Tarsila do Amaral nasceu em 1886 no município de Capivari, no interior do Estado de São Paulo. Era neta de José Estanislau do Amaral, cognominado “o milionário”, em razão da imensa fortuna que acumulou com as suas fazendas no interior de São Paulo.
Estuda em São Paulo e completa seus estudos em Barcelona, onde pinta seu primeiro quadro aos 16 anos. Casa-se em 1906 com André Teixeira Pinto com quem teve a sua única filha, Dulce. Separa-se dele e começa a estudar, a partir de 1916, escultura e, depois, desenho e pintura em São Paulo. Em 1920 embarca para a Europa, onde expõe, em 1922, um quadro no Salão Oficial dos Artistas Franceses. Nesse mesmo ano regressa ao Brasil e, embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922, faz parte do “grupo dos cinco” modernista, juntamente com Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Nessa época começa também o seu namoro com o escritor Oswald de Andrade.
Volta à Europa em 1923 e tem contacto com outras/os modernistas (Albert Gleizes, Fernand Léger, Blaise Cendrars, etc.). Em 1926 expõe em Paris com grande sucesso e casa-se com Oswald de Andrade. Em 1928 pinta o “Abaporu” que oferecerá como presente de aniversário a Oswald que, inspirado pelo quadro, cria o Movimento Antropofágico. Começa a fase antropofágica da sua pintura. Em 1929 expõe individualmente pela primeira vez no Brasil. Separa-se de Oswald em 1930.
Em 1933 pinta o quadro “Operários” e dá início à pintura social no Brasil. No ano seguinte participa do I Salão Paulista de Belas Artes. Passa a viver com o escritor Luís Martins por quase vinte anos, de meados dos anos 30 a meados dos anos 50. De 1936 à 1952, trabalha como colunista nos Diários Associados.
Nos anos 50 volta ao tema “Pau Brasil”. Participa em 1951 da I Bienal de São Paulo. Em 1963 tem sala especial na VII Bienal de São Paulo e no ano seguinte participação especial na XXXII Bienal de Veneza. Faleceu em São Paulo em 1973.
A Negra (1923)
Pintado em Paris, enquanto tomava aulas com Fernand Léger. Com os seus elementos cubistas é considerado antecessor da Antropofagia na pintura de Tarsila. “A Negra” evoca, também, a infância numa família de grandes fazendeiros, onde costumava haver mulheres negras, geralmente filhas de escravos, que exerciam de amas-secas, espécies de babás, que cuidavam das crianças.
Abaporu (1928)
O quadro mais importante produzido no Brasil no século XX. Pintado para ser oferecido ao escritor Oswald de Andrade, que se assustou ao vê-lo. Chamou o também escritor Raul Bopp e ambos resolveram que aquela figura estranha representava algo excepcional. Tarsila consultou um dicionário tupi-guarani e baptizaram o quadro como “Abaporu” (o ser humano que come). A partir de aí, Oswald escreveu o "Manifesto Antropófago" que iniciou o Movimento Antropofágico na cultura brasileira contemporânea. Foi o quadro mais caro vendido até hoje no Brasil (comprado por US$ 1.500.000 por Eduardo Costantini).
O Ovo (1928)
A cobra grande, relacionada com a mitologia ameríndia, tem um poder de "deglutição". A partir daí, o ovo passa a simbolizar uma génese de algo novo, tal como o propõe a Antropofagia. Esta tela pertence ao acervo de Gilberto Chateaubriand.
A Lua (1928)
A Lua - Este quadro era o preferido de Oswald de Andrade, com quem estava casada quando pintou a tela. Ele conservou o quadro até à sua morte (mesmo já separado de Tarsila).
Antropofagia (1929)
Com este quadro, Tarsila, realizou uma fusão do "Abaporu" com "A Negra".
Em 1891, há 120 anos, morreu Antero de Quental, uma das figuras marcantes da cultura portuguesa na segunda metade do século XIX.
Nasceu em 1842 em Ponta Delgada e veio para o continente, em 1855, e estudou Direito
em Coimbra, entre 1858 e 1864. Em 1865 publicou as Odes Modernas, envolvendo-se ainda na agitação académica,
particularmente através da organização secreta «Sociedade do Raio», de que era
presidente. Datam também deste período as suas manifestações de entusiasmo face
aos movimentos sociais europeus, bem como a leitura dos grandes teorizadores do
socialismo e dos filósofos da época, nomeadamente Proudhon e Hegel, que muito
influenciaram o seu pensamento.
Igualmente, em 1865, e reagindo a Castilho,
encabeçou a Questão Coimbrã, tão importante na evolução da cultura
portuguesa, publicando "Bom Senso e Bom Gosto", carta a Castilho, que
teve várias edições em Coimbra e Lisboa, e A Dignidade das Letras e as
Literaturas Oficiais, em Lisboa. Aí, defendia já a missão social da poesia
por oposição ao lirismo ultra-romântico. Antero ascendeu, assim, a mentor da Geração de 70.
Durante os anos de 1870-72, fez parte das redacções
dos periódicos A República, com Oliveira Martins, Batalha Reis, Eça de
Queirós e António Enes, e do Pensamento Social, com Oliveira Martins.
Fundou, em 1872, a Associação Fraternidade Operária, representante em Portugal
da I Internacional Operária, e publicou, no Porto, Considerações sobre a
Filosofia da História Literária Portuguesa e Primaveras Românticas.
A este período de combate, que perdurou até cerca de
1875, esteve também ligada a organização das Conferências do Casino
(1871), ciclo da responsabilidade do «Grupo do Cenáculo» (que incluía Eça de
Queirós, Ramalho Ortigão e Batalha Reis, entre outros), que Antero elevara a
centro de reflexão política, social e cultural. Nas conferências, leu um dos
seus textos de análise histórica mais célebres, "Causas da Decadência dos
Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos", que corresponde aos desejos
de transformação do país que animavam a sua geração.
Em 1873, a morte do pai fê-lo regressar aos Açores,
dotando-o de uma herança que lhe garantiu uma vida sem problemas económicos.
Entretanto, atacado por uma doença estranha (identificada por alguns como
psicose maníaco-depressiva), foi obrigado a moderar a sua actividade. Apesar
disso, dirigiu ainda, com Batalha Reis, a Revista Ocidental (1875).
Iniciou-se então um período de profundo pessimismo, deixando-se Antero dominar
por um sentimento de morte e de aniquilação pessoal (e universal), numa espécie
de nirvana budista, como única forma de libertação face ao desespero de uma
vida que via apenas como ilusão e vazio, e que os seus Sonetos Completos
(reunidos em 1886) ilustram. Neste período, que terminou por volta de 1880,
publicou ainda no Dois Mundos (publicação de Paris) uma biografia de
Michelet. No ano seguinte, seguiu para Vila do Conde, assumindo a educação das
filhas, entretanto órfãs, de Germano Meireles, um seu amigo, e vivendo em
relativa calma até ao fim dessa década. Aceitou ainda, em 1890, a presidência
da Liga Patriótica do Norte, um dos movimentos de reacção ao Ultimato inglês.
Aos seus problemas pessoais e à persistência da doença somava-se a desilusão
face ao estado do país. Em 1891, regressou a Ponta Delgada e, nesse mesmo ano,
suicidou-se.
A obra de Antero, que reflecte, quer uma evolução,
quer a coexistência simultânea de várias facetas da sua personalidade e de um
intenso drama interior, é fundamentalmente a de um pensador, de um doutrinário
e conceptualizador. Mesmo o sentimento erótico e amoroso, presente em poemas de
juventude, acaba por se tornar fundamentalmente alegórico, reflectindo anseios
e abstracções, mais do que uma emotividade pessoal do poeta. Poeta da razão, da
revolução, mas também do pessimismo, foi um sonetista exemplar.
Em prosa, onde revela grande poder oratório, levou a
cabo o melhor da sua obra crítica e doutrinária, na análise da filosofia da
história portuguesa (como em "Tendências Gerais da Filosofia na Segunda
Metade do Século XIX", ensaio publicado, em 1890, na Revista de
Portugal, de Eça de Queirós) e na crítica do positivismo então dominante, a
que opunha a necessidade de uma consciência espiritual no mundo. A esta
concepção está ligada a ideia de santidade que sempre o dominou — não no
sentido religioso cristão, mas com expressão no seu espírito combativo, numa
epopeia da humanidade e da revolução, na sua fase combativa, e, em princípio e
fim de vida, num apelomístico interior. Pela sua envergadura intelectual, pela
perfeição da sua técnica do soneto e pelo seu contributo para a história das
ideias, é um dos nomes fundamentais da cultura portuguesa.
Um dos seus poemas mais modernos, e que condensa todo um conjunto de problemas estéticos e filosóficos do século XIX, talvez seja "Noites de primavera no 'boulevard'" de 1867:
Em 1908, o compositor Luís de Freitas Branco dedica-lhe este poema sinfónico ("Depois de uma leitura de Antero de Quental")
Obras de Antero de Quental
Poesia: Sonetos (1861), Beatrice (1863), Fiat
Lux (1863), Odes
Modernas (1865), Primaveras Românticas (1872), Sonetos
(1881), Sonetos Completos (1886), Raios de Extinta Luz, Poesias
Inéditas 1859-1863 (1892), Poesias de Extinta Luz e Outras Poesias
(1948) e Versos (1973).
Ensaio e prosa: Prosas
(3 volumes, 1923, 1926, 1931), Prosas Dispersas (1967), Prosas da
Época de Coimbra (1973) e Cartas (2 vols.) e Filosofia (estas duas últimas publicadas em
1991 numa edição das Obras Completas org. pela Universidade dos Açores).
Um dos poetas maiores de Moçambique. Nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo) em 1922 e faleceu em Joanesburgo em 2003. Foi o poeta da resistência no tempo anterior à Independência, sem ter abdicado do activismo no período ulterior. Muitos dos seus poemas são considerados, hoje, como textos fundadores da nacionalidade moçambicana. Bibliografia, poesia: Chigubo (1964); Karingana ua karingana (1974), Cela 1 (1980), Maria (1988), Babalaze das Hienas (1997); ficção: Hamina e Outros Contos (1997).
Biografia:
Neste vídeo, José Craveirinha declama um dos seus poemas mais célebres, "Grito Negro":
Gonçalves Dias denunciou a escravatura, não só dos índios, como também dos negros, dizendo que a riqueza brasileira consiste nos escravos, pois nada se faz sem o seu sangue.
Em "Meditação" de 1845, G.D. fala da ideia da divisão do trabalho, da distribuição do poder e da instrução para denunciar a supremacia do branco, a escravidão do negro e a marginalidade de índios e mestiços. Misturam-se neste texto a dor trazida pela civilização / perda da liberdade e a afirmação da independência /nacionalidade brasileira. Ao contrário do índio, que costuma aparecer na sua obra como "a extinta raça“ ("Os Timbiras“) e raiz da nação brasileira, o negro fica à margem dessas considerações. G.D. dedica apenas um poema ao negro, titulado "A Escrava“. Aí, o problema social divide o espaço com a temática da saudade e do exílio. Dá voz às lembranças de uma escrava das belezas do Congo e do amor lá deixado. Fala-se apenas do sofrimento do negro, sem considerá-lo entre as raízes nacionais, o que pode ser considerado uma atitude comum ao Romantismo brasileiro.
O bien qu'aucun bien ne peut rendre, O Patrie, ó doux nom que l'exil fait comprendre! Marino Faliero
Oh! doce país de Congo, Doces terras d'além-mar! Oh! dias de sol formoso! Oh! noites d'almo luar!
Desertos de branca areia De vasta, imensa extensão, Onde livre corre a mente, Livre bate o coração!
Onde a leda caravana Rasga o caminho passando, Onde bem longe se escuta As vozes que vão cantando!
Onde longe inda se avista O turbante muçulmano, O Iatagã recurvado, Preso à cinta do Africano!
Onde o sol na areia ardente Se espelha, como no mar; Oh! doces terras de Congo, Doces terras d'além-mar!
Quando a noite sobre a terra Desenrolava o seu véu, Quando sequer uma estrela Não se pintava no céu;
Quando só se ouvia o sopro De mansa brisa fagueira, Eu o aguardava — sentada Debaixo da bananeira.
Um rochedo ao pé se erguia, Dele à base uma corrente Despenhada sobre pedras, Murmurava docemente.
E ele às vezes me dizia: — "Minha Alsgá, não tenhas medo: Vem comigo, vem sentar-te Sobre o cimo do rochedo."
E eu respondia animosa: — "Irei contigo, onde fores!" E tremendo e palpitando Me cingia aos meus amores.
Ele depois me tornava Sobre o rochedo — sorrindo: — "As águas desta corrente Não vês como vão fugindo?
"Tão depressa corre a vida, Minha Alsgá; depois morrer Só nos resta!... — Pois a vida Seja instantes de prazer.
"Os olhos em torno volves Espantados — Ah! também Arfa o teu peito ansiado!... Acaso temes alguém?
"Não receies de ser vista, Tudo agora jaz dormente; Minha voz mesmo se perde No fragor desta corrente.
"Minha Alsgá, por que estremeces? Por que me foges assim? Não te partas, não me fujas, Que a vida me foge a mim!
"Outro beijo acaso temes, Expressão de amor ardente? Quem o ouviu? — o som perdeu-se No fragor desta corrente."
Assim praticando amigos A aurora nos vinha achar! Oh! doces terras de Congo, Doces terras d'além-mar!
———
Do ríspido Senhor a voz irada Rábida soa, Sem o pranto enxugar a triste escrava Pávida voa.
Mas era em mora por cismar na terra, Onde nascera, Onde vivera tão ditosa, e onde Morrer devera!
Sofreu tormentos, porque tinha um peito, Qu'inda sentia; Mísera escrava! no sofrer cruento, "Congo!" dizia.
Na próxima quinta-feira, dia 17 de novembro, vai-se iniciar o ciclo de debate sobre poesia e práticas textuais contemporâneas "POEMATIZA!", organizado pelo grupo de investigação GAELT da Universidade de Vigo. Para esta primeira sessão contamos com a presença do crítico literário e professor da Universidade da Coruña, Luciano Rodríguez, que seleccionou dois textos poéticos que introduzirá brevemente e sobre os quais debatirá, depois, com o público. Este debate terá lugar na sala A4-A da Facultade de Filoloxía e Tradución.
Um dos textos em questão vai ser "Cómo se pinta un dragón" de José Ángel Valente (pode ser visto aqui), enquanto o outro será o poema "Isto" de Fernando Pessoa que, junto com "Autopsicografia", é um dos textos mais emblemáticos da sua teoria do fingimento:
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Como a imaginação.
Não uso o coração.
Cartaz do ciclo de Gabriel Pérez Durán
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa‚ que‚ linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
(in Obra Poética, Rio: Editora Nova Aguilar, 1984: 99)
Em continuação dos exemplos, já disponibilizados em posts anteriores, sobre o indianismo romântico de Gonçalves Dias, sobre o testemunho quinhentista da antropofagia do aventureiro Hans Staden e da sua adaptação na TVBrasil e, também, sobre uma interpretação no contexto mais vasto da tradução cultural (desde o primeiro contacto cultural até ao modernismo), queremos destacar aqui ainda outros materiais interessantes e úteis para o estudo do tema. Para adquirir uma noção rápida da importância do conceito/ideia da antropofagia no Brasil moderno, poderia servir esta leitura parcial do manuscrito do escritor modernista Oswald de Andrade sobre "A reabilitação do primitivo", por Beatriz Azevedo, durante o Encontro Internacional de Antropofagia (EIA!) no ano 2005 em São Paulo. “A Reabilitação do Primitivo” é o título dado pela editora à comunicação escrita por Andrade para o “Encontrodos Intelectuais” de 1954 em Rio de Janeiro, e que foi enviada ao pintor Di Cavalcanti que deveria lê-la (in Estética e Política, Obras Completas, ed. por Maria Eugenia Boaventura, São Paulo: Editora Globo 1991:
Em relação ao ritual antropofágico ameríndio, que deu lugar a uma metáfora cultura que não pára de se desenvolver e diversificar na cultura brasileira desde o romantismo, queríamos destacar, ainda, a conferência de Manuela Carneiro da Cunha durante o Encontro Internacional de Antropofagia, nal qual esta professora de Antropologia na Universidade de Chicago faz um breve e sugestivo resumo dos factos e significados do ritual antropofágico tupi: