17/11/11

A Representação da/o Negra/o no Romantismo Brasileiro: Gonçalves Dias

Gonçalves Dias denunciou a escravatura, não só dos índios, como também dos negros, dizendo que a riqueza brasileira consiste nos escravos, pois nada se faz sem o seu sangue.
Em "Meditação" de 1845, G.D. fala da ideia da divisão do trabalho, da distribuição do poder e da instrução para denunciar a supremacia do branco, a escravidão do negro e a marginalidade de índios e mestiços. Misturam-se neste texto a dor trazida pela civilização / perda da liberdade e a afirmação da independência /nacionalidade brasileira. Ao contrário do índio, que costuma aparecer na sua obra como "a extinta raça“ ("Os Timbiras“) e raiz da nação brasileira, o negro fica à margem dessas considerações.
G.D. dedica apenas um poema ao negro, titulado "A Escrava“. Aí, o problema social divide o espaço com a temática da saudade e do exílio. Dá voz às lembranças de uma escrava das belezas do Congo e do amor lá deixado. Fala-se apenas do sofrimento do negro, sem considerá-lo entre as raízes nacionais, o que pode ser considerado uma atitude comum ao Romantismo brasileiro.




O bien qu'aucun bien ne peut rendre,
O Patrie, ó doux nom que l'exil fait comprendre!
Marino Faliero




Oh! doce país de Congo,
Doces terras d'além-mar!
Oh! dias de sol formoso!
Oh! noites d'almo luar!

Desertos de branca areia
De vasta, imensa extensão,
Onde livre corre a mente,
Livre bate o coração!

Onde a leda caravana
Rasga o caminho passando,
Onde bem longe se escuta
As vozes que vão cantando!

Onde longe inda se avista
O turbante muçulmano,
O Iatagã recurvado,
Preso à cinta do Africano!

Onde o sol na areia ardente
Se espelha, como no mar;
Oh! doces terras de Congo,
Doces terras d'além-mar!

Quando a noite sobre a terra
Desenrolava o seu véu,
Quando sequer uma estrela
Não se pintava no céu;

Quando só se ouvia o sopro
De mansa brisa fagueira,
Eu o aguardava — sentada
Debaixo da bananeira.

Um rochedo ao pé se erguia,
Dele à base uma corrente
Despenhada sobre pedras,
Murmurava docemente.

E ele às vezes me dizia:
— "Minha Alsgá, não tenhas medo:
Vem comigo, vem sentar-te
Sobre o cimo do rochedo."

E eu respondia animosa:
— "Irei contigo, onde fores!"
E tremendo e palpitando
Me cingia aos meus amores.

Ele depois me tornava
Sobre o rochedo — sorrindo:
— "As águas desta corrente
Não vês como vão fugindo?

"Tão depressa corre a vida,
Minha Alsgá; depois morrer
Só nos resta!... — Pois a vida
Seja instantes de prazer.

"Os olhos em torno volves
Espantados — Ah! também
Arfa o teu peito ansiado!...
Acaso temes alguém?

"Não receies de ser vista,
Tudo agora jaz dormente;
Minha voz mesmo se perde
No fragor desta corrente.

"Minha Alsgá, por que estremeces?
Por que me foges assim?
Não te partas, não me fujas,
Que a vida me foge a mim!

"Outro beijo acaso temes,
Expressão de amor ardente?
Quem o ouviu? — o som perdeu-se
No fragor desta corrente."

Assim praticando amigos
A aurora nos vinha achar!
Oh! doces terras de Congo,
Doces terras d'além-mar!

———

Do ríspido Senhor a voz irada
Rábida soa,
Sem o pranto enxugar a triste escrava
Pávida voa.

Mas era em mora por cismar na terra,
Onde nascera,
Onde vivera tão ditosa, e onde
Morrer devera!

Sofreu tormentos, porque tinha um peito,
Qu'inda sentia;
Mísera escrava! no sofrer cruento,
"Congo!" dizia.

08/11/11

POEMATIZA!: Ciclo sobre poesia na Universidade de Vigo

Na próxima quinta-feira, dia 17 de novembro, vai-se iniciar o ciclo de debate sobre poesia e práticas textuais contemporâneas "POEMATIZA!", organizado pelo grupo de investigação GAELT da Universidade de Vigo. Para esta primeira sessão contamos com a presença do crítico literário e professor da Universidade da Coruña, Luciano Rodríguez, que seleccionou dois textos poéticos que introduzirá brevemente e sobre os quais debatirá, depois, com o público. Este debate terá lugar na sala A4-A da Facultade de Filoloxía e Tradución. 
Um dos textos em questão vai ser "Cómo se pinta un dragón" de José Ángel Valente (pode ser visto aqui), enquanto o outro será o poema "Isto" de Fernando Pessoa que, junto com "Autopsicografia", é um dos textos mais emblemáticos da sua teoria do fingimento:

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Como a imaginação.
Não uso o coração.
Cartaz do ciclo de Gabriel Pérez Durán
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa‚ que‚ linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
                                     (in Obra Poética, Rio: Editora Nova Aguilar, 1984: 99)

Declamação do poema por João Villaret:



Uma breve análise pode ser encontrada aqui.

03/11/11

Antropofagia brasileira: do ritual à metáfora cultural

Em continuação dos exemplos, já disponibilizados em posts anteriores, sobre o indianismo romântico de Gonçalves Dias, sobre o testemunho quinhentista da antropofagia do aventureiro Hans Staden e da sua adaptação na TVBrasil e, também, sobre uma interpretação no contexto mais vasto da tradução cultural (desde o primeiro contacto cultural até ao modernismo), queremos destacar aqui ainda outros materiais interessantes e úteis para o estudo do tema. Para adquirir uma noção rápida da importância do conceito/ideia da antropofagia no Brasil moderno, poderia servir esta leitura parcial do manuscrito do escritor modernista Oswald de Andrade sobre "A reabilitação do primitivo", por Beatriz Azevedo, durante o Encontro Internacional de Antropofagia (EIA!) no ano 2005 em São Paulo. “A Reabilitação do Primitivo” é o  título dado pela editora à comunicação escrita por Andrade para o “Encontrodos Intelectuais” de 1954 em Rio de Janeiro, e que foi enviada ao pintor Di Cavalcanti que deveria lê-la (in Estética e Política, Obras Completas, ed. por Maria Eugenia Boaventura, São Paulo: Editora Globo 1991:



No site http://antropofagia.uol.com.br/ o projecto InterneTOTEM oferece uma variadíssima documentação sobre o tema. 
Em relação ao ritual antropofágico ameríndio, que deu lugar a uma metáfora cultura que não pára de se desenvolver e diversificar na cultura brasileira desde o romantismo, queríamos destacar, ainda, a conferência de Manuela Carneiro da Cunha durante o Encontro Internacional de Antropofagia, nal qual esta professora de Antropologia na Universidade de Chicago faz um breve e sugestivo resumo dos factos e significados do ritual antropofágico tupi:






28/10/11

Gonçalves Dias: "I-Juca Pirama", as origens da nacionalidade brasileira

Gonçalves Dias é o primeiro poeta brasileiro a falar de uma nova raça, valorizando o seu componente indígena que será, como depois também em José de Alencar, o elemento fundador da nacionalidade.
O poema "I-Juca-Pirama" é um conjunto de 10 cantos que parecem conter um projecto épico. O título significa "o que há de ser morto, e é digno de ser morto". O poema está estruturado através da fala-memória de um velho índio sobre a bravura de um jovem descendente da tribo tupi que caiu prisioneiro dos Timbiras, cuja gesta, cantada no seu canto de morte (IV, 15-38), representa a gesta de toda a tribo. O jovem tupi declara a guerra aos timbiras para se mostrar digno de morrer nas suas mãos e esta valentia é o traço característico das figuras ameríndias em Gonçalves Dias. O texto completo pode ser lido aqui

Introdução a Gonçalves Dias e a "I-Juca Pirama":





I-Juca-Pirama em cinema de animação (2011): Curta Metragem de animação baseado no poema homónimo de Gonçalves Dias. Direcção: Elvis K. e Italo Cajueiro; narração: Ruy Guerra (I-Juca),  Roberto Bontempo (Cacique Timbira), Murilo Grossi (Pai do I-Juca); música: João Antônio; sound design: Marcelo Guima; percussão: Pauly di Castro:




Análise de "I-Juca Pirama" por Manoel Neves:


Uma frase repetida pelo velho timbira no canto X reforça a ideia da testemunha ocular que ele foi: "Meninos, eu vi!". Esta frase e o título do poema ficaram célebres quando foram aproveitados em 1985 como nome de personagem na telenovela “O Salvador da Pátria”. Nesta novela, Juca Pirama é um locutor de rádio que denunciava as oligarquias e os traficantes locais e acaba assassinado continuando, assim, a apologia da valentia gonçalvina:


27/10/11

Almeida Garrett: Frei Luís de Sousa. O texto e as adaptações cinematográficas

Aqui poderão aceder ao texto completo do Frei Luís de Sousa e aqui encontrarão um pequeno dossier sobre Garrett e o seu texto dramático mais conhecido.

A primeira adaptação cinematográfica, realizada por António Lopes Ribeiro, teve estreia em Lisboa a 21 de Setembro de 1950 no cinema S. Jorge. Pode ser vista aqui.

No entanto, a adaptação mais recente é de João Botelho, com o título Quem és Tu? (2001). Botelho antepõe à sua reencenação do texto romântico um longo prólogo explicativo, no qual Maria sonha com um D. Sebastião que lhe revela o contexto histórico da Batalha de Alcácer-Quibir:













24/10/11

"Bom Povo Português"

Há 30 anos estreou-se em Lisboa Bom Povo Português, um dos mais premiados e referenciados documentários históricos sobre a situação social e política de Portugal entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975. O realizador, Rui Simões, descreve que esta longa-metragem representa o período histórico em questão «tal como ela foi sentida pela equipa que, ao longo deste processo, foi ao mesmo tempo espectador, actor, participante, mas que, sobretudo, se encontrava totalmente comprometida com o processo revolucionário em curso (PREC)».


Bom Povo Português - 1.ª Parte from Núcleo 70 on Vimeo.



Bom Povo Português - 2.ª Parte from Núcleo 70 on Vimeo.

23/10/11

Filme brasileiro rebenta clichés: "Os Famosos e os Duendes da Morte"

'Os Famosos e os Duendes da Morte', a primeira longa-metragem de Esmir Filho, baseada no romance homónimo de Ismael Caneppele, mostra temas que não estamos habituados a associar com o filme brasileiro: tristeza, depressão, frio, camisolas e gente deprimida, a dançar em bailes de tradição germânica e a ouvir música em inglês. Ler mais aqui.
Um rapaz adolescente, fã de Bob Dylan, tem acesso ao resto do mundo apenas por meio da internet, enquanto vê os dias passarem em uma pequena cidade rural de colonização alemã, no sul do Brasil. Mas uma figura misteriosa o faz mergulhar em lembranças e num mundo além da realidade. O filme já foi premiado em diversos festivais ao redor do mundo.