11/05/11

Portugal explicado às/aos Finlandesas/os

Um vídeo cheio de meias verdades, embora tenha um final surpreendentemente crítico, apresenta-se como a resposta às reticiências finlandesas de prestar ajuda financeira a Portugal:

09/05/11

Adília Lopes

"Louvor do lixo" (in A Mulher-a-Dias, Lisboa: &etc 2002, 13-14):



para a Amra Alirejsovic
quem não viu Sevilha não viu maravilha)

É preciso desentropiar / a casa / todos os dias / para adiar o Kaos / a poetisa é a mulher-a-dias / arruma o poema / como arruma a casa / que o terramoto ameaça / a entropia de cada dia / nos dai hoje / o pó e o amor / como o poema / são feitos / no dia a dia / o pão come-se / ou deita-se fora / embrulhado / (uma pomba / pode visitar o lixo) / o poema desentropia / o pó deposita-se no poema / o poema cantava o amor / graças ao amor / e ao poema / o puzzle que eu era / resolveu-se / mas é preciso agradecer o pó / o pó que torna o livro / ilegível como o tigre / o amor não se gasta / os livros sim / a mesa cai / à passagem do cão / e o puzzle fica por fazer / no chão


"Nunca choraremos bastante..." (in Decote da Dama de Espadas (Romances), Lisboa: Gota de Água 1988):



Nunca choraremos bastante / termos querido ser belas / à viva força / eu quis ser bela / e julguei que para ser bela / bastava usar canudos / pedi para me fazerem canudos / com um ferro de frisar e papelotes / puxaram-me muito pelos cabelos / eu gritei / disseram-me para ser bela / é preciso sofrer / depois o cabelo queimou-se / não voltou a crescer / tive de passar a andar com uma peruca / para ser bela é preciso sofrer / mas sofrer não nos faz forçosamente belas / um sofrimento não implica como consequência / uma recompensa / uma dor de dentes pode comover a nossa mãe / que para nos consolar sem saber de quê / nos dá um rebuçado / mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes / a consequência de um sofrimento / pode ser outro sofrimento / a causa é posterior ao efeito / o motivo do sofrimento é uma das consequências / do sofrimento / os papelotes são uma consequência da peruca

O cheiro de Deus - Recital de poesia de Adília Lopes




Adília Lopes - Nota 4





A Elisabeth foi-se embora, Adília Lopes




A Elisabeth foi-se embora

(com algumas coisas de Anne Sexton)

Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida


Papopoético 90 - Adilia Lopes





Entrevistas:

Transcrição de uma entrevista de Carlos Vaz Marques emitida na TSF no dia 17 de Junho de 2005: http://ofuncionariocansado.blogspot.com/2009/01/adilia-lopes-entrevista-de-carlos-vaz.html

Longa entrevista por escrito, dirigida por várias turmas da Escola Secundária José Gomes Ferreira em 2005: http://gavetadenuvens.blogspot.com/2005/09/entrevista-adlia-lopes.html


Bibliografia de Adília Lopes:
  • Um Jogo Bastante Perigoso (Ed. autora, 1985)
  • A Pão e Água de Colónia (Frenesi, 1987)
  • O Marquês de Chamilly (Kabale und Liebe) (Hiena, 1987)
  • O Decote da Dama de Espadas (INCM, 1988)
  • Os 5 Livros de Versos Salvaram o Tio (Ed. autora, 1991)
  • O Peixe na Água (& etc, 1993)
  • A Continuação do Fim do Mundo (& etc, 1995)
  • A Bela Acordada (Black Sun Editores, 1997)
  • Clube da Poetisa Morta (Black Sun Editores, 1997)
  • O Poeta de Pondichéry seguido de Maria Cristina Martins (Angelus Novus, 1998)
  • Florbela Espanca espanca (Black Sun Editores, 1999)
  • Sete rios entre campos (& etc, 1999)
  • Irmã Barata, Irmã Batata (Angelus Novus, 2000)
  • Obra (Mariposa Azual, 2000)
  • A Bela Acordada (Mariposa Azual, 2001)
  • Quem Quer Casar Com a Poetisa? (Quasi, 2001)
  • César a César (& etc, 2003)
  • Poemas Novos (& etc, 2004)
  • Caras Baratas (Relógio D'Água, 2004)
  • Le Vrai La Nuit - A Árvore Cortada (& etc, 2006)
  • Caderno (& etc, 2007)
  • Apanhar Ar (Assírio&Alvim 2010)

Alguma literatura crítica:

Material variado (poemas, entrevistas, recensões, artigos de índole académica): http://www.arlindo-correia.com/200301.html

Comparação entre as obras de Adília Lopes e da poeta galega Lupe Gómez: http://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch/Papers/150197/Entre_o_Essencialismo_Rural_de_Fisteus_e_o_Pos-modernimso_urbano_de_Lisboa_uma_Comparacao_Im_Possivel_entre_Lupe_Gomez_e_Adilia_Lopes

Sobre alguns aspectos pós-modernos e feministas da obra: http://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch/Papers/155114/Traduciendo_entre_la_entropia_y_la_subversion_la_obra_postmoderna_de_Adilia_Lopes

02/05/11

A utopia continua: José Saramago em entrevista de 1997

Há pouco foi colocada no youtube esta entrevista realizada em 1997 pela brasileira TV Cultura, para o programa Roda Viva, na qual se deu uma curiosa encenação com Saramago sentado no meio de um círculo de jornalistas, entre as/os quais estava a escritora Lygia Fagundes Telles:

06/04/11

Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas num Universo Globalizado

Acabam de ser publicadas as Actas do Encontro Internacional Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas num Universo Globalizado, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian do 25 ao 26 de Outubro de 2010. O pdf das Actas pode ser decarregado aqui.

Reproduzimos uma parte do índice:

Painel 1 – A língua portuguesa no mundo (Francisco Pinto Balsemão)
Para uma política de internacionalização da língua (Ana Paula Laborinho)
A maneira portuguesa de estar no mundo (Adriano Moreira)
A Língua Portuguesa no Mundo (Graça M. Gomes)

Painel 2 – Diáspora e emigração(Eduardo Lourenço)
Diáspora e emigração – sobre as comunidades portuguesas dos EUA e Canadá (Onésimo Teotónio Almeida)
Francisco Seixas da Costa
Helder Macedo

XVIII Prémio de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa FCT/UL 2010
Laureados
Bernardo Harold
João Sentieiro

Painel 3 – Valor económico da língua portuguesa
David Ferreira
Renato Borges de Sousa
Pedro Norton
Valor económico da Língua Portuguesa (Paulo Teixeira Pinto)

Painel 4 – Ciberespaço lusófono, como forma de difusão e divulgação da língua – Internet e novas tecnologias
Gilvan Müller
Afonso Camões (apresentação)
Conferência – Alberto Costa e Silva

Sessão de Encerramento
José Luis Dicenta
Isabel Alçada
Notas de Intervenção – Domingos Simões Pereira
João Sentieiro
Recomendações do Colóquio

05/04/11

"O Banqueiro Anarquista" de Fernando Pessoa

«A liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais» 

Esta é a conclusão principal do conto filosófico O Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa, publicado em Maio de 1922 no primeiro número da Contemporânea, dirigida por José Pacheco e ilustrada por Almada Negreiros. Com a sua pretensão de arejar o provincianismo da Lisboa de princípios do século XX, esta revista também procurava prolongar no tempo a pequena e elitista revolução estética da geração de Orpheu. No editorial do seu primeiro número, a Contemporânea apresentava-se como «feita expressamente para gente civilizada e para civilizar gente». Porém, a contribuição de Fernando Pessoa supõe uma variação bastante satírica e ambígua deste ambicioso projecto civilizador. O seu conto abre com a descrição de um ambiente desembaraçado e alegadamente civilizado num destes clubes à inglesa, tradicionalmente alheios aos debates intelectuais ou políticos. Depois de um jantar presumivelmente opulento, um banqueiro rico emaranha o seu ingénuo e servil interlocutor, que actua a modo de um discípulo platónico, com o seu raciocínio complexo e paradoxal. Segue-se uma lição iconoclasta e irónica sobre o que este banqueiro, confessadamente açambarcador, considera ser o verdadeiro anarquismo, do qual se declara inventor e partidário fervoroso, apesar de as suas práticas profissionais serem, em última instância, anti-sociais e, empregando uma terminologia mais actual, neoliberais. Já o oximoro sociopolítico do título, «O Banqueiro Anarquista», desconcerta de imediato a quem lê este conte philosophique, podendo causar, até, um certo desassossego na próxima visita ao multibanco. Além de outros três brevíssimos contos de lógica paradoxal, este é o texto de prosa literária completo mais extenso entre os poucos que Pessoa chegou a publicar em vida. Não é um texto que tenha recebido uma atenção especial por parte da crítica pessoana, embora nos possa oferecer uma perspectiva diferente e bastante sugestiva sobre a heteronímia, da qual pretendo fazer aqui um primeiro esboço. No fundo, O Banqueiro Anarquista é um tratado didáctico sobre filosofia política, disfarçado de diálogo vagamente platónico que joga hábil e intencionalmente com diversas variantes de silogismos, tautologias e sofismas.
As principais edições de  O Banqueiro Anarquista são a de Manuela Parreira da Silva na Assírio&Alvim, que inclui 13 fragmentos. A edição de Teresa Sobral Cunha (Relógio d’Água) tem a inconveniência de integrar estes fragmentos no texto sem que existissem indicações inequívocas do autor se e onde os teria inserido.
No seguinte PPT resumimos alguns aspectos de interpretação e de contextualização do conto (uma análise mais detalhada pode ser encontrada aqui):


Encenação de João Garcia Miguel de O Banqueiro Anarquista (2009):





















22/03/11

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro: O Guardador de Rebanhos

Na obra de Fernando Pessoa, o heterónimo Alberto Caeiro representa o mestre, inclusive do Pessoa ortónimo. Conforme o mito heteronímico, nasceu em Vigo (1889) e morreu em Lisboa, tuberculoso, em 1915, decorrendo a sua vida numa quinta no Ribatejo. Porém, há poemas de Caeiro datados de 1930. A sua obra literária consiste em apenas 3 ciclos poéticos: O Guardador de Rebanhos (49 poemas), O Pastor Amoroso (6) e Poemas Inconjuntos. 23 deste poemas foram publicados em vida nas revistas Athena e Presença. Sem profissão e pouco instruído («escrevendo mal o português») era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza». Caeiro procura viver a exterioridade das sensações e recusa a metafísica, caracterizando-se por um panteísmo e um sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

O Guardador de Rebanhos:
Os poemas foram escritos, maioritariamente, em 1914 e Fernando Pessoa atribuiu a sua génese a uma única noite de insónia de Caeiro (no dia 8 de Março, como indica na carta a Adolfo Casais Monteiro, de 1935, sobre a génese dos heterónimos). Parcialmente, foram publicados em 1925 nas 4ª e 5ª edições da revista Athena, enquanto o 8º poema do conjunto viria a ser publicado em 1931, na revista Presença.

Poema do Guardador de Rebanhos musicado por Joana Machado (com Abe Rábade, Bruno Pedrosa e Pablo Martín Caminero):




Declamação (em português do Brasil), com imagens, d' O Guardador de Rebanhos:



















25/02/11

Cesário Verde faz 156 anos


No dia 25 de Fevereiro, há 156 anos, nasceu Cesário Verde, talvez o poeta mais importante do século XIX em Portugal. Neste blogue oferecemos uma série de materiais em relação à sua vida e obra: uma breve biobibliografia, uma edição online do poema "Contrariedades" e de O Livro de Cesário Verde, junto com um extenso powerpoint que ilustra "O Sentimento dum Ocidental" com imagens do século XIX:
Completamos a homenagem com a adaptação do poema "Contrariedades" por Noé Touraldo, com música de Amontron e interpretado por Pedro Ribeiro e Ana Machado. O filme recebeu a menção honrosa no Festival Bibliofilmes em 2009: